A medicina brasileira está prestes a passar por um “check-up” obrigatório que promete ser tão polêmico quanto necessário. A aprovação do Profimed, o exame nacional de proficiência para médicos, é a resposta política a uma pergunta incômoda: quem garante que o seu médico realmente sabe o que está fazendo?
O senador Astronauta Marcos Pontes, autor da proposta, não mediu palavras ao chamar o cenário atual de “crescimento desordenado da incompetência”. A comparação com o exame da OAB é imediata e inevitável. Se advogados precisam provar que conhecem a lei para advogar, por que médicos não deveriam provar que conhecem o corpo humano para operar?
O “e daí?” dessa proposta atinge diretamente as centenas de novas faculdades de medicina que surgiram pelo Brasil na última década. Muitas delas abriram as portas sem hospitais-escola adequados ou professores qualificados, tratando o curso de medicina mais como um produto financeiro do que como uma formação humanitária.
O Profimed chega para ser esse filtro de qualidade. Ele vai avaliar não apenas a teoria, mas a habilidade clínica e a conduta ética. É o fim da era em que o diploma era o único e automático passaporte para o registro no CRM.
No entanto, o projeto já nasce no centro de uma queda de braço política. O senador Rogério Carvalho levantou uma questão fundamental: quem deve aplicar a prova? Deixar o exame apenas nas mãos do Conselho Federal de Medicina (CFM) pode criar um sistema onde a própria classe controla quem entra no mercado, correndo o risco de corporativismo.
Por outro lado, confiar apenas no Ministério da Educação (MEC) — que foi quem permitiu a abertura dessas mesmas faculdades questionadas — gera uma desconfiança compreensível sobre o rigor da avaliação.
O ceticismo aqui é essencial: uma prova de múltipla escolha é capaz de medir a sensibilidade e a perícia de um cirurgião? Críticos argumentam que o exame pode se tornar apenas mais um mercado de “cursinhos preparatórios”, sem resolver a falha estrutural da má formação universitária.
A medicina não é apenas memorização de sintomas; é prática, ética e experiência de campo. O Profimed foca no resultado final, mas o problema real pode estar no início da fila: a fiscalização das faculdades enquanto o aluno ainda está lá dentro.
Para o paciente, a medida traz um alívio psicológico. Saber que o profissional passou por um crivo nacional unificado aumenta a confiança no sistema. Mas o impacto real na saúde pública só será sentido daqui a alguns anos, quando os primeiros “reprovados” forem impedidos de atuar.
O Brasil está tentando consertar o motor com o carro em movimento. Temos um déficit de médicos em várias regiões, mas colocar profissionais mal preparados para preencher essas vagas é um remédio que pode matar o paciente.
A aprovação do Profimed é um reconhecimento tardio de que a quantidade não substitui a qualidade. Resta saber se o exame será um filtro rigoroso ou apenas mais uma burocracia em um sistema já sobrecarregado.
A pergunta final que fica para os futuros médicos e para a sociedade é: o Profimed vai realmente criar melhores médicos ou vai apenas expor o tamanho do desastre na educação superior do Brasil?

