O julgamento em torno das práticas da Meta Platforms no que diz respeito ao uso de suas redes sociais por crianças e adolescentes entrou em uma nova fase em Los Angeles nesta semana, com o depoimento do CEO .
Nesta quarta-feira (18), o executivo compareceu a uma audiência no tribunal federal da cidade norte-americana, respondendo a perguntas sobre os mecanismos de verificação de idade e a alegada lentidão na adoção de políticas mais rígidas no Instagram .
O processo, movido contra a Meta e também contra o Google, concentra acusações de que plataformas populares de redes sociais teriam sido projetadas para incentivar o uso intensivo entre usuários jovens, com potenciais efeitos nocivos à saúde mental .
Segundo os documentos apresentados no tribunal, o Instagram só passou a solicitar a data de nascimento dos novos usuários em 2019, e levou até 2021 para estender essa exigência a todos os perfis, o que, conforme a acusação, teria permitido que crianças menores de 13 anos ingressassem livremente na rede .
Em sua fala aos jurados, Zuckerberg reconheceu que a empresa demorou para aprimorar os métodos de identificação de idade e admitiu a dificuldade de verificar de forma eficaz a data de nascimento dos usuários mais jovens, embora tenha defendido os esforços feitos ao longo dos anos .
O executivo argumentou que a responsabilidade de garantir idades corretas não depende apenas da Meta, mas também de decisões de fabricantes de dispositivos e de outros agentes no ecossistema digital, refletindo a complexidade técnica do problema.
Zuckerberg negou categoricamente que a Meta tenha projetado deliberadamente seus produtos para viciar crianças ou adolescentes, destacando que a empresa sempre teve como objetivo final tornar suas plataformas úteis e seguras para os públicos que as utilizam .
O advogado da parte autora apresentou ao tribunal documentos internos datados de 2018 que sugeriam a intenção de atingir usuários mais jovens, inclusive adolescentes e pré-adolescentes, como um público estratégico para o crescimento da plataforma .
Durante o andamento da audiência, também foram exibidos e-mails internos nos quais executivos discutiam a introdução de filtros de imagem e outras funcionalidades cujo impacto sobre públicos jovens era tema de debate entre a equipe da empresa .
O chefe do Instagram, Adam Mosseri, foi ouvido no início do julgamento e rejeitou a ideia de que redes sociais como as de sua gestão pudessem ser classificadas como “viciantes” no sentido clínico, comparando o uso das plataformas a outros hábitos de consumo de entretenimento digital .
A questão da responsabilidade pelo tempo de uso e engajamento na plataforma também foi tratada, com destaque para metas internas que, no passado, mediam o crescimento do tempo médio de uso diário como um indicador de desempenho da empresa .
O caso que originou o processo tem como autora uma jovem californiana de 20 anos que atribui parte de suas dificuldades de saúde mental, incluindo episódios de depressão e pensamentos suicidas, à sua exposição contínua a redes sociais desde a infância .
Além da Meta e do Google, outras grandes empresas de tecnologia foram mencionadas no julgamento, com a TikTok e a Snap já tendo fechado acordos com a autora antes do início das audiências principais .
Na defesa, os representantes da Meta enfatizaram estudos de instituições independentes que, segundo a empresa, não comprovam uma relação causal direta entre o uso de redes sociais e danos significativos à saúde mental de crianças e adolescentes .
Especialistas jurídicos que acompanham o caso observam que o julgamento pode estabelecer parâmetros legais importantes sobre até que ponto plataformas digitais podem ser responsabilizadas por danos que alegadamente decorrem de seus designs e políticas de uso
O processo é considerado um dos primeiros de uma série de ações que tramitam em diferentes estados dos Estados Unidos e que abordam temas semelhantes envolvendo dependência digital entre jovens e responsabilidade das empresas de tecnologia .
Fora dos tribunais, organizações de defesa de crianças e adolescentes têm intensificado clamor por regulação mais rígida do uso de redes sociais, argumentando que as empresas precisam implantar mecanismos de proteção mais robustos para públicos vulneráveis .
Advogados que representam a parte autora afirmaram em entrevistas que o depoimento de Zuckerberg e as evidências internas apresentadas podem revelar a realidade do que, segundo eles, seria uma priorização de crescimento e retenção de usuários em detrimento da segurança de menores de idade .
No entanto, representantes da Meta mantêm que a empresa tem investido continuamente em ferramentas de detecção, verificação de idade e restrições de conteúdo para tornar o ambiente digital mais seguro para todos os usuários, inclusive os mais jovens.
O desfecho do julgamento ainda não foi definido, e analistas jurídicos afirmam que a decisão poderá influenciar ações semelhantes e até políticas públicas internacionais sobre produtos de tecnologia voltados ao público infantil
Especialistas em tecnologia e direito digital destacam que o caso também lança luz sobre desafios globais relacionados à ética nos algoritmos, transparência corporativa e a necessidade de equilíbrio entre inovação tecnológica e proteção de usuários
À medida que o julgamento continua em Los Angeles, a sociedade civil e o setor tecnológico observam atentamente os desdobramentos desse processo que pode redefinir expectativas legais e regulamentares para empresas de mídia social em todo o mundo

