Uma delegada de polícia do Rio Grande do Sul apresentou publicamente a proposta de uma nova lei que visa ampliar medidas de prevenção à violência contra mulheres antes mesmo da formação de um relacionamento afetivo. A iniciativa tem circulado nas redes sociais e gerado debates sobre proteção às mulheres e direitos individuais.
A intenção da delegada gaúcha é que a legislação permita que eventuais parceiras conheçam, de forma segura e legal, o histórico de violência de um homem antes de se envolverem em namoro ou compromisso sério. O objetivo, segundo ela, é reduzir situações em que mulheres se tornam vítimas de agressões que poderiam ser prevenidas com acesso a informações.
Em sua manifestação, divulgada em vídeo nas redes sociais, a titular da delegacia argumenta que muitos agressores seguem padrões manipuladores e repetitivos que dificultam a identificação precoce de riscos. Ela afirma que “é fundamental que se saiba quem está entrando em sua vida” para evitar ciclos de violência.
Esse tipo de proposta ocorre em um contexto em que medidas legais voltadas à proteção das mulheres no Brasil têm sido ampliadas nos últimos anos, com a aprovação de leis que reforçam dispositivos da Lei Maria da Penha e penalizam comportamentos violentos com ferramentas como tornozeleiras eletrônicas para agressores.
No plano federal, por exemplo, uma lei já sancionada permite que agressores de mulheres sejam monitorados por dispositivos eletrônicos, com alertas destinados à vítima e às forças de segurança diante de aproximações indevidas. Essa norma é uma das mais recentes inovações para tentar evitar reincidência de crimes contra mulheres.
Além disso, em 2025 o governo federal aprovou outras mudanças legais que ampliam a proteção às mulheres, como o aumento de pena para violência psicológica cometida com o uso de inteligência artificial ou tecnologia digital para humilhar ou coagir vítimas.
Especialistas em segurança pública ouvidos por esta reportagem observam que a violência contra mulheres no Brasil permanece em níveis elevados, e que debates sobre instrumentos legais adicionais refletem uma demanda social crescente por mecanismos de prevenção.
Dados de instituições que monitoram violência doméstica apontam que uma parte relevante dos casos de agressão não é denunciada às autoridades, o que dificulta registros e atuação preventiva. Isso alimenta discussões sobre formas de encorajar a denúncia e ampliar o alcance da proteção.
No mesmo sentido, decisões judiciais e dados de segurança pública revelam que muitas vítimas só buscam ajuda depois que a violência já se manifestou de modo grave, o que reforça a urgência de políticas públicas eficazes.
A proposta da delegada gaúcha, portanto, insere-se num cenário mais amplo de busca por soluções inovadoras frente ao alto número de agressões domésticas registradas anualmente em várias regiões do país.
Nas redes em que foi publicada, a fala da delegada suscitou reações diversas, com defensores da proposta alegando que “conhecer o histórico de quem se pretende amar é questão de segurança”, e críticos questionando aspectos legais e de privacidade envolvidos na medida.
Juristas consultados por diferentes veículos de comunicação lembram que, no Brasil, o acesso a informações pessoais e antecedentes criminais é regulado por normas que equilibram o direito à privacidade com a necessidade de segurança pública.
Segundo esses especialistas, uma lei que permita ou obrigue a divulgação de registros de violência doméstica antes de um relacionamento poderia enfrentar desafios constitucionais relacionados à presunção de inocência e ao sigilo de dados pessoais.
Ao mesmo tempo, defensores de políticas mais duras contra a violência de gênero enfatizam que, sem mecanismos preventivos eficazes, mulheres continuam vulneráveis a ciclos de abuso que muitas vezes resultam em consequências irreversíveis.
Em nível legislativo, iniciativas semelhantes já foram apresentadas em outras frentes, como projetos que visam tornar inelegíveis candidatos condenados por violência doméstica para cargos públicos, refletindo um movimento mais amplo de responsabilização.
Esses projetos, embora diferentes em objetivo e alcance, compartilham um ponto em comum: a tentativa de ampliar a responsabilização e limitar espaços sociais e institucionais para quem comete violência contra mulheres.
A proposta da delegada gaúcha ainda não foi formalmente protocolada em uma casa legislativa estadual ou federal, e, portanto, não tramita oficialmente como projeto de lei. Sua divulgação até o momento se deu por meio de comunicações públicas em redes sociais.
Analistas políticos observam que, mesmo sem tramitação formal, a repercussão pública de iniciativas desse tipo pode influenciar debates legislativos mais amplos sobre violência de gênero e proteção às vítimas.
Organizações civis que atuam no apoio a mulheres vítimas de violência demonstraram apoio à discussão sobre prevenção, mas ressaltaram que qualquer mecanismo de verificação de histórico precisa respeitar garantias legais e evitar estigmatização.
No Rio Grande do Sul, onde a delegada atua, instituições de proteção à mulher têm se mobilizado para oferecer apoio jurídico e psicológico a vítimas e para reforçar campanhas de conscientização, em parceria com órgãos de segurança pública.
O debate sobre a proposta ainda tende a crescer nos próximos meses, à medida que parlamentares, especialistas em direito e sociedade civil discutem os limites e possibilidades de legislações que visem prevenir a violência contra mulheres antes da ocorrência de danos.
A expectativa de defensores da pauta é que, se formalizada, a proposta seja cuidadosamente analisada para equilibrar proteção às mulheres com respeito às garantias individuais previstas na legislação brasileira.

