Lais Souza visitou recentemente a cidade do Rio de Janeiro para um encontro que ganhou ampla repercussão no meio científico, esportivo e nas redes sociais brasileiras. A ex-ginasta, tetraplégica desde 2014, esteve frente a frente com a bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, responsável pela pesquisa que desenvolveu a polilaminina, uma proteína em estudo como possível tratamento para lesões medulares graves.
A trajetória de Lais Souza no esporte lhe rendeu participações em ciclos olímpicos e títulos nacionais, mas mudou drasticamente após um acidente durante a prática de esqui nos Estados Unidos, quando fraturou a vértebra C3, resultando na perda dos movimentos do corpo. Desde então, a ex-atleta vem se dedicando à reabilitação e à busca por avanços científicos que possam trazer melhorias à sua condição.
A polilaminina, substância criada pela equipe liderada por Tatiana Sampaio na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é derivada da proteína laminina, normalmente presente no sistema nervoso e que desempenha papel importante na organização da matriz extracelular de tecidos. O composto está sendo estudado como um agente que pode facilitar a regeneração de conexões nervosas danificadas após lesões espinhais.
Durante o encontro, Lais expressou sentimentos de gratidão e emoção por finalmente conhecer pessoalmente a pesquisadora à frente dos estudos que ela acompanha há mais de dez anos. Em suas redes sociais, a ex-ginasta compartilhou fotos ao lado de Sampaio e enfatizou que essa foi a primeira vez desde sua lesão que ela sentiu “uma esperança concreta” em relação a um tratamento promissor.
“Hoje tive o privilégio de conhecer Tatiana Sampaio. Eu precisava vir pessoalmente agradecer por todos esses anos dedicados à pesquisa”, escreveu Lais, citando o longo período em que analisou inúmeros estudos científicos ao redor do mundo sem que nenhum lhes trouxesse a mesma expectativa positiva que a polilaminina despertou.
A bióloga Tatiana Sampaio, por sua vez, lidera o laboratório que há décadas dedica esforços para compreender os mecanismos de regeneração neural. Sua pesquisa começou com estudos fundamentais sobre proteínas da matriz extracelular antes de evoluir para aplicações que possam ter impacto clínico direto em casos de lesões medulares graves.
Os estudos com polilaminina já avançaram para a fase 1 de testes clínicos em humanos, etapa que avalia principalmente a segurança do procedimento. Essa fase foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um passo considerado essencial antes da expansão da pesquisa para etapas mais amplas e definitivas.
Pacientes brasileiros com lesões severas na medula espinhal têm buscado acesso ao tratamento experimental em diferentes estados do país, muitas vezes por meio de decisões judiciais que garantem a aplicação da substância fora dos ensaios clínicos oficiais. Alguns desses pacientes relataram recuperação parcial de movimentos após receberem a aplicação.
Os casos de recuperações observadas em indivíduos com paralisia, embora ainda iniciais e de variada intensidade, têm alimentado debates entre a comunidade médica e científica sobre a promessa e os limites da polilaminina como terapia. Especialistas destacam que são necessários dados mais robustos antes que seja possível afirmar eficácia definitiva.
A motivação de Lais em manter-se informada sobre os avanços no tratamento reflete uma postura cautelosa, porém otimista. Ela mesma afirmou acompanhar notícias, entrevistas e publicações científicas relacionadas à pesquisa, ao mesmo tempo em que aconselha prudência em relação às expectativas.
Para a ex-atleta, o significado do encontro vai além de uma simples visita: representa a convergência entre anos de luta pessoal e décadas de pesquisa científica. Ela destacou que, embora a polilaminina ainda esteja em fase inicial de estudo, a proximidade do trabalho com sua vida trouxe um novo impulso à esperança.
Especialistas ouvidos por este veículo apontam que tratamentos experimentais como o da polilaminina exigem rigor metodológico para confirmar sua segurança e eficácia, processo que normalmente se estende por vários anos antes de qualquer recomendação clínica formal. Esse aspecto é ressaltado por instituições envolvidas no desenvolvimento do projeto.
Apesar das incertezas científicas, a repercussão do encontro entre Lais Souza e Tatiana Sampaio nas redes sociais demonstrou grande engajamento público. Comentários de apoio vieram de seguidores, outros atletas e pessoas que têm acompanhado a trajetória de Lais desde o acidente que mudou sua vida.
O impacto dessa repercussão é duplo: incentiva a discussão sobre avanços em saúde e pesquisa no Brasil, e coloca em evidência a importância de se investir em ciência básica e translacional com potencial de transformar vidas em casos concretos.
Longe das competições desde o acidente, Lais também atua como palestrante e figura pública que defende temas relacionados à superação, ciência e inclusão. Sua visibilidade contribui para manter a atenção da sociedade em torno de temas que, de outra forma, poderiam ser relegados a nichos especializados.
A cientista Tatiana Sampaio, que além de liderar a pesquisa é professora universitária, afirma que esforços como esse refletem décadas de dedicação à biologia regenerativa e que o futuro da polilaminina depende da continuidade de estudos e parcerias institucionais.
Pesquisadores envolvidos no projeto destacam que a polilaminina, por ser inspirada em mecanismos naturais de regeneração, pode oferecer uma alternativa complementar a outras abordagens terapêuticas, mas que ainda são necessárias grandes amostras e rigorosos protocolos para validar seus efeitos em larga escala.
A comunidade científica brasileira vê no avanço das pesquisas um indicativo de crescimento da capacidade de inovação do país, sobretudo em áreas de biomedicina com forte impacto social. A expectativa é que resultados positivos abram espaço para estudos colaborativos internacionais.
Enquanto isso, pacientes e familiares seguem atentos aos desdobramentos, buscando informações e discutindo possibilidades de acesso a tratamentos experimentais que, um dia, podem representar uma mudança significativa na forma como lesões medulares são tratadas.
O encontro entre Lais Souza e Tatiana Sampaio, portanto, simboliza não apenas um momento de encontro entre duas mulheres de destaque em suas áreas, mas também um ponto de convergência entre sofrimento, ciência e a busca por soluções que possam ultrapassar os limites atuais do conhecimento médico.

