A cantora norte-americana Billie Eilish voltou a ser destaque no noticiário internacional nos últimos dias após um discurso feito durante a 68ª cerimônia do Grammy Awards que ultrapassou os limites musicais e entrou de cheio no debate político e cultural em 2026.
No palco do Grammy, ao receber o prêmio de Song of the Year por “Wildflower”, Eilish dedicou parte de seus minutos de fala para criticar políticas de imigração dos Estados Unidos, especialmente as ações do Immigration and Customs Enforcement (ICE), ao afirmar que “no one is illegal on stolen land” “ninguém é ilegal em terra roubada”.
A frase, que partiu da artista diante de uma audiência global, suscitou aplausos de parte do público na premiação e reações imediatas nas redes sociais e na imprensa especializada em música, cultura e política.
A declaração reacendeu um debate mais amplo sobre colonização, imigração e direitos indígenas em solo norte-americano. O uso da expressão “terra roubada” faz referência histórica à forma como comunidades nativas tiveram seus territórios tradicionais apropriados ao longo dos séculos, especialmente durante a expansão colonial europeia.
A controvérsia tomou outra dimensão quando críticos e observadores passaram a relacionar as palavras de Eilish com sua vida pessoal — em particular, a propriedade que ela possui na área de Los Angeles, Califórnia. Documentos e análises históricas indicam que a maior parte da região metropolitana de Los Angeles, incluindo bairros como Highland Park, onde a cantora possui residência avaliada em cerca de US$ 3 milhões, está situada em terras que pertenciam tradicionalmente à tribo indígena Tongva, também conhecida como Gabrielino, antes de sua desapropriação.
A tribo Tongva, povo nativo do sul da Califórnia, emitiu declarações públicas confirmando que reconhece que a casa de Eilish se encontra em território ancestral de seu povo. Em resposta à repercussão, representantes do grupo afirmaram que, apesar de apreciarem a visibilidade dada por figuras públicas à história indígena, esperam que em futuras declarações esse reconhecimento seja feito explicitamente em nome dos próprios Tongva.
Apesar dessa confirmação, não existem registros oficiais de uma ação judicial ou de uma ordem de despejo formal contra Eilish por parte da tribo ou das lideranças indígenas. Reportagens de checagem de fatos indicam que rumores de uma demanda legal real são infundados e que as autoridades não registraram processos desse tipo até o momento.
O que ganhou ampla circulação nas últimas semanas foi uma movimentação de um escritório de advocacia californiano — o Sinai Law Firm — que emitiu uma declaração oferecendo, de forma pro bono e satírica, assistência para a tribo Tongva em um possível processo de despejo da cantora de sua mansão, com base no argumento de que a propriedade estaria em terra “roubada”.
Essa oferta foi posteriormente caracterizada por várias fontes como mais simbólica do que jurídica, e não representa um processo ativo ou uma obrigação legal vinculante. Especialistas em direito imobiliário e indígena explicam que a propriedade de Eilish é legal sob as leis vigentes, e que a simples retórica de “terra roubada” não constitui base para um despejo forçado sob o sistema jurídico dos Estados Unidos.
Nas redes sociais e em sites de notícias, a questão gerou polarização. Alguns internautas criticaram a cantora por aquilo que consideram uma contradição entre seu discurso político progressista e a posse de uma residência em terreno ancestral indígena sem aparente iniciativa de diálogo ou reparação cultural.
Outros apoiadores de Eilish argumentaram que as declarações colocadas em debate não devem ser reduzidas à vida pessoal de uma artista, mas sim interpretadas no contexto mais amplo de consciência histórica e solidariedade a grupos marginalizados.
O irmão e colaborador musical de Billie, Finneas O’Connell, também interveio publicamente nas redes sociais, defendendo a irmã e criticando o que chamou de reação exagerada de determinadas figuras públicas à sua fala no palco do Grammy.
Enquanto isso, o episódio reacendeu discussões sobre o papel de celebridades na promoção de causas sociais e políticas, e se a visibilidade concedida por momentos como a entrega do Grammy deve ser acompanhada de ações concretas ou se discursos simbólicos e históricos já cumprem esse papel.
Especialistas em cultura contemporânea comentam que a atenção gerada pela declaração de Eilish reflete a tensão que existe nos Estados Unidos entre narrativas históricas de injustiça e a maneira como elas são interpretadas no presente, sobretudo quando veiculadas por figuras de grande audiência.
Analistas também observam que o foco nas propriedades privadas de artistas famosos pode desviar a atenção das questões estruturais de políticas migratórias e dos debates mais amplos sobre reconhecimento de povos indígenas e direitos territoriais.
Entre as comunidades indígenas e ativistas pelos direitos nativos, há uma variedade de opiniões: alguns veem a reação à fala de Eilish como oportunidade para ampliar o diálogo sobre a história de povos como os Tongva, enquanto outros criticam o episódio como mais um exemplo de tokenismo, em que questões profundas são usadas de forma superficial em debates públicos.
A polêmica continua a circular nas mídias sociais, veículos de notícias e na própria indústria do entretenimento, com repercussões que vão além da carreira musical de Billie Eilish e tocam em temas culturais e políticos mais amplos que permanecem sensíveis no cenário norte-americano.

