Projeto de lei propõe autorizar venda, posse e porte de spray de pimenta para mulheres em todo o Braisl para defesa pessoal

A pergunta que ninguém está fazendo não é se o spray de pimenta funciona, mas por que chegamos ao ponto de achar que ele é a solução.

A proposta da deputada Gorete Pereira reflete uma realidade amarga: o Estado brasileiro está admitindo, por meio de um projeto de lei, que não consegue proteger suas mulheres.

Autorizar que adolescentes de 16 anos andem armadas com spray de pimenta é o atestado de óbito da segurança pública eficiente.

O projeto tenta transformar um item químico em uma ferramenta de sobrevivência urbana, como se um frasco de 50ml pudesse apagar séculos de violência machista.

É uma tentativa de dar uma resposta rápida e barata para um problema que é profundo, cultural e estrutural.

No papel, a ideia parece perfeita: uma proteção não letal, fácil de carregar e que dá uma chance de fuga para a vítima.

Mas, na vida real, o spray de pimenta é uma faca de dois gumes que pode complicar ainda mais uma situação de risco.

Existe um perigo técnico que pouca gente discute: o uso em locais fechados ou contra o vento, onde a própria vítima acaba sendo atingida.

Além disso, há o risco real de o agressor, geralmente mais forte fisicamente, desarmar a mulher e usar o produto contra ela para facilitar o crime.

O projeto fala em multas para o uso indevido, mas quem vai fiscalizar o uso de um spray no meio do pânico de uma agressão?

A proposta foca na defesa na rua, mas ignora que a maioria dos casos de feminicídio e agressão acontece dentro de casa, por pessoas conhecidas.

Ao incentivar o uso do spray, o governo acaba transferindo a responsabilidade da segurança para a própria vítima.

É a “privatização da proteção”: se você for agredida e não tiver seu spray à mão, a culpa passará a ser, sutilmente, sua.

Dizer a uma jovem de 16 anos que ela precisa carregar uma arma química na mochila é roubar o resto de tranquilidade que ela ainda poderia ter.

Enquanto discutimos se a trava do spray deve ser de um jeito ou de outro, deixamos de cobrar políticas reais de iluminação pública e policiamento.

O Rio de Janeiro já liberou o uso, mas isso não impediu que o estado continuasse registrando números assustadores de violência contra a mulher.

O spray pode até dar uma sensação de poder momentâneo, mas ele não resolve o medo constante de quem precisa olhar para trás ao andar na rua.

É como oferecer um guarda-chuva furado para alguém que está sendo arrastado por uma enchente; ajuda um pouco, mas não salva ninguém.

O debate na Câmara dos Deputados deve ser barulhento, mas corre o risco de ser totalmente superficial e focado apenas no acessório.

A verdadeira arma contra o estupro e o feminicídio não vem em lata; ela vem através de educação básica e punição que realmente aconteça.

Dar um spray e não mudar a justiça é como dar um curativo para quem precisa de uma cirurgia de emergência.

No fim das contas, a proposta é um paliativo que tenta esconder a ferida em vez de curá-la de uma vez por todas.

A pergunta final que fica para todos nós é: queremos um país onde as mulheres saibam brigar ou um país onde elas não precisem ter medo de existir?

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