No início de 2026, um relatório oficial publicado no Canadá trouxe à tona um caso que reavivou o debate sobre os limites e as salvaguardas do programa federal de assistência médica ao morrer — conhecido como MAiD (Medical Assistance in Dying) — depois que uma mulher de 80 anos foi submetida ao procedimento sob circunstâncias controversas.
Identificada nos documentos oficiais apenas como “Senhora B”, a paciente teve sua história divulgada pelo Ontario MAiD Death Review Committee, órgão responsável por revisar casos de mortes assistidas na província de Ontário.
Segundo o relatório, a idosa havia passado por uma cirurgia de ponte de safena, um procedimento cardíaco complexo, e vivido complicações de saúde que dificultaram sua recuperação completa.
Após sua alta hospitalar, Senhora B voltou para casa sob cuidados do marido, também idoso, que passou a assumir integralmente sua assistência diária.
O relatório indica que, em certo momento, a paciente chegou a manifestar interesse no programa de MAiD, um mecanismo que, no Canadá, permite a assistência médica para terminar a própria vida em casos elegíveis.
No entanto, durante a primeira avaliação para MAiD, a mulher teria dito aos avaliadores que não desejava mais prosseguir com o pedido de eutanásia, citando valores pessoais e religiosos e afirmando preferência por cuidados paliativos.
De acordo com a documentação, a paciente manifestou que queria receber suporte de cuidados paliativos em regime domiciliar ou em um ambiente especializado, como um hospício, ao invés de prosseguir com a morte assistida.
Pelas normas que regem MAiD no país, o consentimento voluntário e claro é um dos requisitos essenciais para que a assistência médica à morte seja aplicada.
Apesar disso, o relatório apontou que a situação evoluiu de forma inesperada nos dias seguintes à primeira avaliação, motivada em parte pelo estado de exaustão física e mental do marido da paciente, descrito como “caregiver burnout” — termo usado internacionalmente para designar o esgotamento de cuidadores familiares.
Referências ao “caregiver burnout” aparecem no relatório como um fator que pode ter influenciado decisões posteriores, embora o impacto exato desse contexto continue sob análise das autoridades médicas.
O documento ressalta que, no dia seguinte ao primeiro encontro com o assessor de MAiD, o cônjuge procurou novamente serviços médicos para solicitar uma nova avaliação.
A segunda avaliação concluiu que a paciente era elegível para receber MAiD, apesar de uma das profissionais ter expressado dúvidas explícitas quanto à urgência e à necessidade de mais investigação, levantando questões sobre uma possível influência externa na decisão da paciente.
O relatório menciona que o avaliador original tinha preocupações sobre uma mudança drástica no objetivo de fim de vida da paciente e sobre a possibilidade de coação ou influência indevida — particularmente em função da condição emocional do cuidador.
Mesmo diante dessas reservas, a assistência médica especializada considerou que as circunstâncias exigiam intervenção imediata e envolveu um terceiro assessor, que confirmou a elegibilidade da paciente para MAiD.
Ainda no mesmo dia, Senhora B foi submetida ao procedimento de morte assistida sob o programa MAiD.
Esse desfecho desencadeou reações públicas e levantou questionamentos de membros do Parlamento canadense, que usaram expressões fortes ao se referirem ao caso, afirmando que a vida da mulher teria sido interrompida sem que sua própria vontade fosse plenamente respeitada.
Entre as críticas, foi destacada a alegação de que um sistema voltado para proteção e decisão própria pode, em certas circunstâncias, falhar em garantir essas salvaguardas quando indivíduos vulneráveis estão envolvidos.
Representantes do Ontario MAiD Death Review Committee enfatizaram, em suas observações, que a atenção deveria ter se centrado em assegurar que a paciente e seu marido tivessem acesso a cuidados paliativos e suporte adequados, em vez de prosseguir diretamente para a eutanásia.
O caso reacendeu debates no Canadá sobre o equilíbrio entre autonomia na decisão de fim de vida e a necessidade de proteger pessoas em situações de vulnerabilidade, especialmente idosos que dependem de cuidadores familiares.
Especialistas em políticas de saúde pública e bioética têm discutido se as normas atuais de MAiD precisam ser revistas para reforçar critérios de consentimento e mecanismos de avaliação, de modo a evitar que casos semelhantes se repitam.
A discussão pública prossegue, com opiniões divididas sobre como equilibrar a assistência médica ao morrer com a garantia de que a vontade do paciente seja sempre central no processo.

