Os grupos no Discord que estimulam violência contra cães e gatos na internet; “Só vale se o animal sofrer muito para m*rrer “

Nos últimos meses, autoridades brasileiras intensificaram a atenção sobre um fenômeno perturbador que ocorre em comunidades virtuais da internet: a formação de grupos online que incentivam e compartilham conteúdo de violência extrema contra cães e gatos em plataformas digitais, entre elas o Discord, aplicativo de mensagens que ganhou popularidade entre jovens nos últimos anos.

O caso mais emblemático que trouxe este problema para o debate público foi a morte do cão comunitário conhecido como Orelha, em Florianópolis (Santa Catarina), animal querido por moradores da Praia Brava que foi espancado por adolescentes no início de janeiro e posteriormente teve de ser euthanasiado devido às lesões graves.

Desde então, investi­gações de segurança pública e relatos de especialistas em comportamento digital apontam que essas comunidades, muitas vezes chamadas de “panelas” ou subgrupos fechados, exercem um papel de incentivo à violência pelo simples fato de ela existir. Nesses ambientes, usuários — em grande parte jovens — compartilham cenas ou incentivam ações cruéis como forma de ganhar notoriedade, reconhecimento ou status dentro do grupo.

Delegados e investigadores envolvidos no monitoramento desses grupos relatam que episódios de maltrato animal são apresentados como “desafios” e geram estímulo entre os participantes para que outros reproduzam comportamentos semelhantes. Esse conjunto de práticas tem sido classificado por profissionais de segurança digital como uma forma de zoossadismo, expressão que descreve a busca de prazer ou entretenimento através da violência contra animais.

Segundo relatos divulgados por autoridades como a delegada Lisandrea Salvariego, coordenadora de um núcleo especializado em crimes digitais da Polícia Civil, a violência costuma alcançar picos durante a noite, muitas vezes entre 23 h e 3 h, quando há maior participação de usuários.

“O que motiva tudo isso é a violência pela violência. Não tem nenhum objetivo, além de ficar famoso, conhecido e ter status dentro daquele grupo. Hoje, a violência escalou muito, principalmente com relação aos animais”, disse Salvariego em entrevista recente referindo-se ao conteúdo observado.

A prática de gravar ou transmitir em tempo real maus-tratos a cães e gatos, segundo especialistas, reforça a dessensibilização dos participantes em relação ao sofrimento dos animais e normaliza atitudes que em contextos normais seriam consideradas impensáveis ou criminosas.

Em muitos desses vídeos ou transmissões de comunidade, há relatos de incentivo para que participantes pratiquem atos de crueldade de formas cada vez mais extremas, visando, entre outros fatores, a manutenção de um lugar hierárquico dentro do grupo ou a validação pelos demais usuários.

Autoridades têm observado que, ao expor repetidamente esses comportamentos entre os membros jovens, ocorre uma redução progressiva da empatia e um aumento da tolerância à violência, fatores que especialistas em psicologia social consideram indicadores de risco para comportamentos anti-sociais mais amplos.

O fenômeno ganha complexidade porque esses grupos não são públicos: muitos exigem convite ou passam por um processo de aprovação para que novos participantes ingressem. Isso dificulta a atuação de moderadores e de plataformas porque esses ambientes funcionam como espaços privados, longe do alcance de fiscalização automática.

O Discord, aplicativo citado em diversas investigações sobre o tema, afirmou em suas diretrizes que não permite a publicação ou transmissão de conteúdo que contenha violência real, crueldade contra animais ou glorificação de tais atos, e que políticas específicas existem para remoção desses materiais.

Ainda assim, autoridades em segurança pública digital e agentes de investigação ressaltam que nem sempre as remoções ocorrem de forma eficiente ou rápida, especialmente em grupos privados, onde o conteúdo circula com mínima moderação automatizada da plataforma.

Organizações de defesa animal e estudiosos de comportamento online argumentam que, além da atuação das plataformas, é necessário fortalecer a educação digital na família e na escola, de modo que crianças e adolescentes compreendam os riscos e consequências do consumo e da participação em ambientes que incentivam violência explícita.

Juízes especializados em infância e juventude também têm alertado para a frequência com que jovens aparecem associados a episódios de tortura ou maus-tratos divulgados em redes sociais, indicando que o uso de telas sem supervisão pode agravar comportamentos prejudiciais.

“A combinação explosiva de uso da internet sem supervisão familiar e a exposição repetida à violência cria um contexto onde a insensibilidade em relação ao sofrimento de outros seres vivos se reforça”, afirmou a juíza Vanessa Cavalieri, ressaltando que esses casos não são isolados.

Entretanto, especialistas jurídicos destacam que a legislação vigente já prevê sanções para maus-tratos a animais, e que casos extremos ou que envolvem a participação de menores podem resultar em medidas socioeducativas ou responsabilização dos responsáveis legais quando comprovado o incentivo ou participação ativa.

Organizações civis e ativistas de direitos dos animais têm impulsionado campanhas nas redes sociais pedindo justamente políticas preventivas mais efetivas e punições mais rigorosas para quem promove ou participa desses grupos, inclusive por meio de hashtags e petições que ganharam grande adesão após o caso do cão Orelha.

Profissionais de tecnologia também alertam que o problema não se restringe a uma única plataforma: comunidades violentas podem se formar e migrar entre aplicativos como Discord, Telegram ou mesmo redes sociais tradicionais, sempre buscando espaços com menor moderação.

A crescente atenção sobre o tema levou a uma intensificação das investigações por parte de unidades especializadas em crimes digitais, incluindo cooperação entre diferentes estados e com entidades internacionais de segurança cibernética.

Especialistas afirmam que compreender a dinâmica desses grupos — incluindo fatores sociais, psicológicos e tecnológicos que os sustentam — é fundamental para desenvolver estratégias eficazes de prevenção e intervenção no ambiente online.

Enquanto isso, famílias, educadores e sociedade civil seguem debatendo qual deve ser o papel das plataformas, do Estado e da própria comunidade digital para reduzir a disseminação de comportamentos que incentivam a violência contra animais e outros seres vulneráveis.

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