O debate sobre os impactos sociais do feminismo ganhou novos contornos após a publicação de um relato pessoal que provocou forte repercussão no Reino Unido. A reflexão partiu de uma jornalista experiente, cuja trajetória profissional sempre esteve associada a pautas progressistas e à defesa da igualdade de gênero.
Kate Mulvey, uma jornalista britânica de 63 anos, publicou um comovente depoimento no iNews em março de 2025. No texto, ela revisita sua própria história e analisa decisões tomadas ao longo de mais de quatro décadas de militância.
Ativista feminista convicta desde a década de 1980, ela construiu sua identidade pública a partir de uma postura crítica em relação aos papéis tradicionais atribuídos às mulheres. Durante anos, participou de debates, escreveu artigos e defendeu a independência feminina como valor central.
Segundo o próprio relato, essa convicção moldou também sua vida pessoal. A jornalista admite ter adotado uma postura rígida diante de relacionamentos amorosos, frequentemente interpretando vínculos afetivos como potenciais ameaças à autonomia.
Ao longo do depoimento, ela afirma ter tratado homens como adversários em diversas fases da vida. A prioridade, segundo descreve, era preservar a autossuficiência e evitar qualquer forma de dependência emocional.
Agora solteira, sem filhos e isolada, ela expressa profundo arrependimento: “Eu afastei os homens, os menosprezei, me convenci de que não precisava de ninguém. O resultado: estou sozinha, e é difícil. O feminismo me fez acreditar que era liberdade, mas na maior parte das vezes me deixou vazia.”
A declaração repercutiu intensamente nas redes sociais e em fóruns de discussão sobre igualdade de gênero. Parte do público interpretou o texto como uma autocrítica honesta, enquanto outros consideraram a análise excessivamente generalizante.
No artigo, Mulvey não nega a relevância histórica do movimento feminista. Ela reconhece conquistas fundamentais, como avanços legais, maior participação feminina no mercado de trabalho e ampliação de direitos civis.
O ponto central de sua reflexão, entretanto, concentra-se no que define como “excesso ideológico”. Para ela, determinadas correntes teriam promovido uma visão polarizada das relações entre homens e mulheres.
Ela sustenta que, em sua experiência pessoal, a retórica de confronto influenciou escolhas afetivas. Ao priorizar a independência absoluta, afirma ter fechado portas para a construção de uma vida compartilhada.
A jornalista destaca que a solidão na maturidade tem peso diferente daquele sentido na juventude. Segundo relata, o isolamento se tornou mais evidente com o avanço da idade e a redução do círculo social.
O texto também aborda expectativas geracionais. Mulheres que ingressaram na vida adulta nos anos 1980, período de forte efervescência política, foram incentivadas a romper com modelos tradicionais de família.
Para Mulvey, esse rompimento foi interpretado de maneira literal demais em sua trajetória pessoal. Ela argumenta que confundiu independência com afastamento sistemático de vínculos duradouros.
Ela não rejeita completamente a luta pela igualdade, mas critica o excesso ideológico que, segundo ela, destruiu suas chances de ter uma vida a dois e uma família. A distinção entre igualdade de direitos e rejeição de relacionamentos é um dos eixos centrais de sua análise.
Especialistas em comportamento social observam que relatos individuais não representam necessariamente o impacto global de um movimento. Ainda assim, histórias pessoais costumam influenciar o debate público por sua dimensão emocional.
A repercussão também reacendeu discussões sobre escolhas pessoais e responsabilidade individual. Para alguns analistas, decisões afetivas resultam de múltiplos fatores, não apenas de convicções políticas.
Outros defendem que movimentos sociais podem, de fato, moldar valores e expectativas, influenciando profundamente trajetórias individuais. Nesse contexto, o depoimento de Mulvey foi interpretado como um estudo de caso sobre os efeitos culturais de determinadas narrativas.
A jornalista descreve seu momento atual como uma fase de revisão e aprendizado. Sem renegar completamente o passado, ela afirma buscar uma compreensão mais equilibrada sobre autonomia e interdependência.
O relato também toca em um tema sensível: o arrependimento tardio. Em suas palavras, há o reconhecimento de que algumas oportunidades não podem ser recuperadas com o tempo.
A discussão gerada pelo artigo evidencia a complexidade do debate sobre feminismo, liberdade individual e relações afetivas. Ao compartilhar sua experiência, Kate Mulvey inseriu uma perspectiva pessoal em um tema historicamente marcado por disputas ideológicas e transformações sociais profundas.

