Brasil atingiu nível alarmante de crianças desaparecidas, mais de 90 mil de casos foram registrados em 4 anos

Quantas crianças precisam desaparecer para que o assunto deixe de ser tratado como estatística? No Brasil, a resposta parece inquietante: milhares não têm sido suficientes.

Entre janeiro e abril do ano passado, 7.731 crianças desapareceram. Em quatro anos, o número ultrapassa 90 mil casos. Cerca de 34 mil seguem sem qualquer desfecho conhecido.

Isso significa, na prática, uma média de 57 crianças desaparecendo por dia. Não é um surto. É rotina.

O dado mais perturbador não está apenas no volume, mas no silêncio que o cerca. Não há sirenes, nem pronunciamentos recorrentes, nem sensação de emergência nacional.

Desaparecimento infantil virou um ruído de fundo, diluído em boletins burocráticos e relatórios técnicos que raramente alcançam o debate público.

Segundo especialistas e dados do Ministério da Justiça, o fenômeno atinge de forma desproporcional crianças de áreas vulneráveis. Onde o Estado chega pouco, o sumiço chega cedo.

Não se trata apenas de sequestros cinematográficos. Muitos casos envolvem evasão escolar, violência doméstica, exploração sexual, tráfico humano ou fuga de contextos insuportáveis.

O desaparecimento, nesses casos, não começa no dia em que a criança some. Começa muito antes, quando ela deixa de ser protegida.

O comentarista Paulo Alceu chama atenção para um ponto incômodo: a ausência de políticas públicas robustas. O Brasil reage a tragédias, mas raramente previne.

Campanhas de conscientização são pontuais, fragmentadas e, muitas vezes, dependentes de comoção momentânea. Passado o choque, o tema evapora.

Outro elo frágil é a investigação. Delegacias especializadas são raras, mal equipadas e sobrecarregadas. Tempo, nesse tipo de caso, é tudo — e costuma faltar.

Há ainda um território pouco enfrentado: o papel da internet. Plataformas digitais funcionam como espaço de aliciamento, exposição e circulação invisível de crianças.

A fiscalização é lenta, reativa e frequentemente um passo atrás de redes criminosas que operam com agilidade tecnológica.

Enquanto isso, famílias ficam suspensas no limbo. Sem corpo, sem resposta, sem luto possível. O desaparecimento é uma violência que não se encerra.

Cada criança não localizada representa uma falha coletiva. Não apenas do sistema de segurança, mas da rede de proteção social como um todo.

O país parece aceitar, com desconfortável naturalidade, que milhares de infâncias possam simplesmente se dissolver.

Talvez porque essas crianças não desapareçam dos centros de poder, mas das periferias invisíveis ao noticiário diário.

O debate costuma surgir quando há um rosto, uma foto viral, uma história que emociona. Mas a maioria some sem imagem, sem nome, sem hashtag.

Tratar o desaparecimento infantil como crise exige mais do que discursos. Exige orçamento, integração entre órgãos, dados transparentes e prioridade política real.

Exige também admitir que o problema não é episódico, mas estrutural.

Enquanto isso não acontece, o Brasil segue contabilizando ausências como quem registra chuva: com precisão técnica e indiferença prática.

A pergunta permanece, incômoda e sem resposta: quantas crianças ainda precisam desaparecer para que o país decida procurá-las de verdade?

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