Quantas vezes ainda vamos chamar de “tragédia familiar” aquilo que é, há anos, um padrão social reconhecível?
O assassinato de uma mulher e de uma criança de dois anos em Minas Gerais não é um evento isolado. É a repetição de um roteiro conhecido.
Um homem, uma relação afetiva, a suspeita de traição e a violência extrema como resposta.
A cena muda pouco. O instrumento varia. O desfecho é quase sempre o mesmo.
No noticiário, o crime aparece como um surto, um rompante, um ato fora da curva.
Essa narrativa conforta. Afasta a ideia de que o problema é estrutural.
Mas a violência doméstica não nasce no momento do golpe. Ela é construída no silêncio anterior.
Ela se forma na posse disfarçada de ciúme, no controle tratado como cuidado, na raiva normalizada.
Quando o agressor mata, ele apenas leva ao limite uma lógica que já estava em funcionamento.
A presença de uma criança entre as vítimas desmonta qualquer tentativa de relativização.
Não se trata de “crime passional”. Trata-se de exercício absoluto de poder.
O facão não é símbolo de fúria. É símbolo de domínio.
O discurso da traição, frequentemente usado como justificativa informal, revela algo ainda mais inquietante.
A ideia de que a mulher deve explicações finais ao parceiro, mesmo que o preço seja a própria vida.
Nesse raciocínio distorcido, a honra masculina vira valor superior à existência do outro.
O Estado chega depois. A polícia chega depois. O luto chega depois.
A prevenção, quando existe, costuma chegar tarde.
Casos como esse expõem o abismo entre leis de proteção e a realidade cotidiana das relações abusivas.
Não falta legislação. Falta capilaridade, escuta e resposta rápida.
Falta levar a sério os sinais prévios que quase sempre existem.
O feminicídio raramente é imprevisível. Ele é anunciado.
A morte da criança, por sua vez, escancara o dano colateral de uma sociedade que tolera a violência até o ponto da ruptura.
Crianças não morrem por acaso em contextos assim. Elas são atingidas pelo transbordamento do ódio.
Quando um homem mata dentro de casa, ele não destrói apenas uma vida. Ele implode um núcleo inteiro.
E ainda assim, seguimos tratando cada caso como um ponto fora da curva.
Talvez porque admitir o padrão nos obrigue a admitir responsabilidade coletiva.
Enquanto o debate se limitar ao choque momentâneo, nada muda.
O verdadeiro escândalo não é o crime em si — é a frequência com que ele se repete sem nos transformar.
A pergunta que fica não é por que isso aconteceu.
É por que continuamos fingindo que não sabemos como começa.

