Reelator da CPI solicita depoimento da esposa de Moraes e quebra de contrato de sigilo por contrato de R$129 milhões

O problema não é investigar. O problema é quem está sendo investigado.

Ao pedir a convocação de Viviane de Moraes e a quebra de sigilo de sua empresa, o senador Alessandro Vieira tocou num nervo exposto da República.

Não pelo valor em si — R$ 129 milhões — mas pelo entorno simbólico que esse número carrega.

Viviane é advogada. Também é esposa de um dos ministros mais poderosos do Supremo Tribunal Federal.

E, no Brasil, o parentesco raramente é um detalhe neutro.

O contrato com o Banco Master, agora sob suspeita de lavagem de dinheiro segundo o relator da CPI do Crime Organizado, tornou-se mais do que um objeto técnico.

Virou um teste de coerência institucional.

A CPI ainda não julgou, nem condenou, nem sequer ouviu. O requerimento aguarda votação.

Mas o simples ato de pedir a convocação já provoca reações defensivas.

Isso diz menos sobre o caso específico e mais sobre o ambiente em que ele surge.

Nos últimos anos, o discurso anticorrupção foi seletivamente aplicado, muitas vezes guiado por conveniência política.

Uns foram expostos à luz crua. Outros permaneceram sob penumbra respeitosa.

A CPI, ao mirar alguém ligado ao topo do Judiciário, desafia essa assimetria histórica.

Não se trata de presumir culpa. Trata-se de perguntar se o rigor vale para todos.

O Banco Master, por sua vez, aparece como ponto de convergência de diversos ruídos recentes do sistema financeiro.

Contratos vultosos, estruturas pouco transparentes e decisões regulatórias que ainda pedem explicação.

O que a CPI sugere investigar não é o casamento, mas o fluxo de dinheiro.

E dinheiro, quando circula em valores dessa magnitude, deixa rastros ou levanta alarmes.

A lavagem de dinheiro, se existiu, não se prova com manchetes, mas com documentos.

Por isso a quebra de sigilo é menos um ataque pessoal e mais um instrumento clássico de apuração.

O desconforto surge quando a investigação ameaça atravessar a fronteira simbólica do poder.

No Brasil, instituições costumam se blindar umas às outras em nome da estabilidade.

Mas estabilidade sem transparência é apenas silêncio organizado.

A CPI pode falhar. Pode arquivar. Pode se perder em disputas políticas.

Mas recuar antes mesmo de investigar seria um sinal mais grave.

Porque a pergunta central não é sobre Viviane de Moraes.

É sobre se o Estado brasileiro consegue investigar sem pedir licença ao sobrenome.

Se a resposta for não, o problema não é o contrato de R$ 129 milhões.

É o preço institucional que seguimos pagando para não olhar para cima.

E esse, historicamente, sempre foi o mais alto.

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