Quando uma instituição financeira cresce rápido demais, a pergunta não é como ela ganhou mercado, mas quem ajudou a manter o terreno firme.
A revelação feita por Anthony Garotinho sobre uma participação das Organizações Globo no capital do Nubank reacende um velho desconforto brasileiro: a interseção entre poder financeiro e poder narrativo.
Segundo o ex-governador, cerca de 25% do banco digital estaria nas mãos do maior conglomerado de mídia do país. Os números exatos variam conforme a fonte, o que por si só já diz muito.
Não se trata apenas de uma fatia societária. Trata-se de influência potencial.
Quando mídia e sistema financeiro compartilham interesses, a cobertura deixa de ser apenas jornalismo e passa a ser também gestão de risco reputacional.
É nesse ponto que entram o Banco Master, sua liquidação e o tom adotado por parte da imprensa.
A narrativa dominante apresentou a liquidação como solução técnica, quase inevitável. Pouco se discutiu quem perderia — e quanto — se outro caminho fosse escolhido.
Uma intervenção do Banco Central, em vez da liquidação, poderia ter imposto prejuízos significativos a instituições que distribuíram títulos do Master.
Entre elas, segundo informações que circulam nos bastidores do mercado, estariam nomes de peso como Nubank, XP e BTG Pactual.
A cifra citada — cerca de R$ 2,9 bilhões em CDBs distribuídos via NuInvest — ainda carece de confirmação oficial, mas não é trivial.
O ponto sensível não é a venda dos títulos em si, mas a forma como o risco teria sido apresentado ao investidor comum.
A garantia do FGC aparece aqui como personagem central: segura, conhecida e frequentemente usada como selo de tranquilidade.
O problema começa quando a garantia vira argumento de marketing, não de transparência.
As ações judiciais que envolvem XP e BTG giram justamente em torno dessa fronteira turva entre informação e persuasão.
Nesse tabuleiro, o Banco Central surge como árbitro — e, segundo Garotinho, como peça a ser protegida.
A tese é incômoda: a liquidação teria sido menos um ato moral e mais um acordo tácito para evitar perdas maiores no sistema.
Nada disso está provado. Mas tudo isso merece ser perguntado.
O silêncio relativo de grandes veículos sobre certos ângulos do caso não prova conspiração, mas revela prioridades editoriais.
E prioridades, em ambientes de capital cruzado, raramente são inocentes.
Quando um banco é também parceiro — direto ou indireto — da mídia que o cobre, o conflito não precisa ser explícito para existir.
Ele opera por omissão, por ênfase seletiva, por enquadramento.
No fim, a questão não é se há um complô perfeitamente orquestrado.
A questão é mais simples e mais estrutural: quem perde quando essas perguntas não são feitas?
Num país onde o sistema financeiro já fala difícil e o noticiário fala baixo, a maior vítima costuma ser o investidor comum.
E transparência, nesse jogo, continua sendo o ativo mais escasso do mercado.

