Prefeito de São Paulo anuncia que não irá dar dinheiro público para carnaval: “Bloquinho que busque seu próprio patrocínio”

Desde quando a festa mais popular da cidade precisa provar que merece existir?

Ao afirmar que blocos de carnaval devem buscar patrocínio próprio, Ricardo Nunes não fez apenas uma recomendação administrativa. Ele acionou uma engrenagem antiga de conflito entre cultura de rua e lógica empresarial.

“Não ficar parado esperando tudo do governo” soa razoável à primeira escuta. Quase pedagógico.

Mas a frase carrega uma premissa silenciosa: a de que o carnaval de rua é um projeto que deveria se sustentar como uma startup.

Blocos, porém, não nascem em planilhas. Nascem em bairros, lajes, bares e ensaios improvisados.

O carnaval paulistano é um organismo coletivo, não um produto embalado.

É verdade que os blocos cresceram. Arrastam multidões, geram receita, impactam a cidade.

E justamente por isso passaram a incomodar quando deixam de caber na categoria “folclore simpático”.

Ao pedir patrocínio, a prefeitura empurra os blocos para o mercado — e o mercado nunca é neutro.

Quem patrocina escolhe visibilidade, linguagem, público e até repertório.

A rua, que sempre foi espaço de excesso e desordem criativa, corre o risco de virar vitrine.

Há também uma assimetria pouco discutida. Grandes blocos conseguem marcas. Pequenos, periféricos e dissidentes, não.

Sustentabilidade financeira, nesse contexto, vira filtro social.

O poder público, então, se reposiciona: menos financiador cultural, mais gestor de impactos.

Limpa a rua, organiza o trânsito, mas se distancia da essência do evento.

É uma terceirização simbólica da festa.

O paradoxo é evidente. O carnaval movimenta bilhões, atrai turismo, projeta a cidade globalmente.

Mas quando chega a conta da infraestrutura, a cultura vira custo.

Não se trata de defender dependência eterna do Estado. Trata-se de reconhecer função pública.

Carnaval não é só entretenimento. É ocupação do espaço urbano, expressão política, válvula social.

Exigir que ele se comporte como negócio é ignorar sua natureza.

A fala do prefeito dialoga com um espírito de época: menos Estado, mais iniciativa privada, mesmo no campo simbólico.

Só que festa não é serviço sob demanda.

Quando o poder público se afasta demais, o vazio não fica vazio. Alguém ocupa.

E quem ocupa costuma cobrar ingresso invisível: padronização, controle, exclusão.

Talvez a pergunta correta não seja quanto o carnaval custa à prefeitura.

Mas quanto a cidade custa sem ele.

Porque uma cidade que só investe no que dá lucro imediato acaba empobrecendo onde mais parecia rica: na vida comum.

E isso, patrocínio nenhum resolve.

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