Um caso que ganhou atenção pública no final de outubro mobiliza autoridades educacionais e policiais na Bahia depois de uma denúncia envolvendo estudantes de 12 anos que teriam planejado envenenar professoras em uma escola de Salvador. A investigação ainda está em andamento, mas a gravidade da situação levantou debate sobre disciplina, segurança e cultura escolar nas instituições públicas do país.
Segundo relatos oficiais, quatro alunos do ensino fundamental teriam combinado entre si colocar veneno em doces para entregar a duas professoras — uma de matemática e outra de inglês — como forma de evitar a reprovação e a necessidade de fazer prova de recuperação.
A suposta tentativa teria ocorrido dentro da Escola Estadual localizada no bairro de São Caetano em Salvador, despertando reação imediata da direção do estabelecimento. A denúncia chegou ao conhecimento dos responsáveis escolares ainda antes de qualquer entrega dos alimentos contaminados, o que impediu que a conduta fosse efetivamente consumada.
Testemunhas ouvidas pela polícia afirmaram que os alunos envolvidos expressaram, em conversas com colegas, o medo de que a recuperação escolar pudesse comprometer seu progresso acadêmico. Esse temor teria sido o principal motivo de sua ação, segundo relatos apurados pelas equipes de investigação.
O plano foi descoberto porque um quinto estudante, que não fazia parte do grupo, percebeu a intenção dos demais e comunicou a direção da escola, evitando assim que qualquer docente fosse colocada em risco. Esse alerta precoce motivou a intervenção imediata dos responsáveis pela unidade escolar.
A Polícia Civil da Bahia foi acionada para apurar os fatos e instaurou procedimentos na Delegacia para o Adolescente Infrator (DAI) para investigar a conduta dos menores e as circunstâncias que cercam o caso. Laudos periciais e depoimentos de envolvidos e testemunhas fazem parte da fase de coleta de evidências.
Em paralelo à investigação criminal, a direção da escola realizou reuniões com as famílias dos alunos suspeitos para comunicar oficialmente a ocorrência e discutir medidas socioeducativas que possam ser aplicadas, em conformidade com a legislação que rege a responsabilidade de menores.
A Secretaria da Educação do Estado da Bahia emitiu nota informando que acompanha o caso de perto e que providências administrativas estão sendo adotadas para oferecer apoio às partes envolvidas, incluindo suporte psicológico às professoras e aos alunos.
As duas docentes que teriam sido alvos do plano não foram identificadas publicamente, em respeito às normas de privacidade e à investigação em curso. Uma delas, contudo, relatou em áudio momentos de apreensão e surpresa ao saber da ação que poderia ter comprometido sua segurança física.
“Eu particularmente fiquei estarrecida, anestesiada. Falo para que vocês fiquem atentos, em alerta, e não aceitem nada dos alunos, infelizmente estamos vivendo assim”, afirmou a professora em uma das mensagens tornadas públicas por intermediários.
Após a descoberta, os quatro estudantes foram afastados da escola temporariamente, embora continuem a cumprir atividades pedagógicas em casa sob supervisão da equipe educacional. Além disso, há acompanhamento psicológico para lidar com o impacto emocional da situação.
Especialistas em educação ouvidos por veículos de imprensa ressaltam que casos desse tipo, embora raros, refletem tensões mais amplas no ambiente escolar, incluindo ansiedade por desempenho, pressão por notas e desafios na formação socioemocional dos alunos.
A legislação brasileira, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), estabelece critérios específicos para lidar com atos infracionais cometidos por menores, combinando medidas socioeducativas com proteção integral e acompanhamento familiar.
No âmbito escolar, o Código de Conduta das instituições prevê sanções disciplinares para comportamentos que coloquem em risco a segurança de professores e estudantes, incluindo afastamento, advertência e encaminhamentos a programas de apoio pedagógico e psicológico.
Representantes de conselhos tutoriais e organizações ligadas à educação têm apontado que a resposta a esse episódio não deve ser apenas punitiva, mas também preventiva, abordando fatores que possam levar jovens a enxergarem a violência como solução para problemas acadêmicos.
O debate público sobre esse caso também chamou a atenção para a necessidade de fortalecer a formação de professores em gestão de conflitos e comunicação com estudantes em situações de dificuldade, especialmente em turmas com pressão por desempenho escolar.
Entidades de profissionais da educação têm defendido a implementação de programas de mediação e suporte emocional dentro das escolas como forma de reduzir tensões e melhorar a convivência entre alunos e docentes.
Pais e responsáveis também foram convidados a participar de encontros com a direção escolar para discutir estratégias de apoio mais efetivas a crianças e adolescentes que enfrentam ansiedade e medo de reprovação, fatores citados como motivadores do incidente.
O caso, além de despert ar atenção imediata das autoridades, provocou reflexão mais ampla na comunidade educacional sobre como equilibrar rigor acadêmico, bem-estar dos alunos e segurança no ambiente escolar sem recorrer a medidas extremas.
Enquanto as investigações seguem seu curso, a Bahia se soma a outras regiões do país que têm enfrentado desafios relacionados à disciplina escolar, reforçando a importância de políticas públicas integradas para promoção de ambientes de aprendizagem seguros e acolhedores.
A expectativa agora se volta aos desdobramentos judiciais e administrativos, bem como às recomendações que poderão surgir a partir da análise do caso por autoridades educacionais, policiais e especialistas em infância e adolescência.

