Na zona oeste de São Paulo, um dos bairros mais vibrantes da capital, a rotina de um restaurante acabou virando símbolo de um problema maior: a quebra de confiança entre moradores, comerciantes e a concessionária de energia elétrica. O proprietário da Taquería La Sabrosa, na Rua Francisco Leitão, afirma que seu estabelecimento está sem luz há mais de seis dias, acumulando prejuízo significativo e sem previsão concreta de normalização do serviço.
O episódio começou na quarta-feira, 10 de dezembro, quando ventos que atingiram quase 100 km/h provocaram a queda de inúmeras árvores e causaram apagões em toda a região metropolitana de São Paulo.
A energia voltou por algumas horas no dia seguinte, mas logo caiu novamente depois que uma árvore caiu sobre os fios em frente ao restaurante — deixando apenas o sobrado onde ele funciona e o imóvel vizinho sem eletricidade enquanto o resto da rua já estava iluminado.
O impacto financeiro tem sido expressivo. O dono calcula em cerca de R$ 40 mil o prejuízo entre vendas perdidas — por dias inteiros fechados — e perda de produtos que estragaram nas geladeiras sem energia. Além disso, ele teve de alugar um gerador por cerca de R$ 7 mil para tentar manter o funcionamento no sábado, dia de maior movimento.
Sem outra alternativa, o empresário tem tentado manter o restaurante aberto ao meio-dia, aproveitando luz natural, e contando com a generosidade dos vizinhos que têm disponibilizado suas geladeiras para preservar alimentos e permitir até o carregamento de celulares e maquininhas de cartão.
“É muito assustador, isso quebrou completamente as nossas pernas”, resumiu o proprietário, que descreve a falta de energia como uma ameaça real à continuidade do negócio — um pequeno restaurante que depende diariamente de eletricidade para operar.
A concessionária Enel, responsável pelo fornecimento na região, afirma ter mobilizado equipes para os reparos e destaca investimentos previstos de R$ 10,4 bilhões na modernização da rede entre 2025 e 2027.
No entanto, as explicações técnicas não têm sido suficientes para muitos moradores e autoridades. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, contestou publicamente a efetividade da resposta da empresa, alegando que o número de equipes em campo é muito menor do que divulgado.
A situação tem outros efeitos práticos além do comércio: relatos de moradores apontam que a falta de luz também provocou interrupções no fornecimento de água e dificuldades no uso de serviços essenciais, aprofundando a sensação de caos e urgência.
O Tribunal de Justiça de São Paulo chegou a determinar que a Enel restabeleça imediatamente a energia em hospitais, serviços de saúde e unidades com eletrodependentes, sob pena de multa, mas pedidos similares para residências e comércios ainda estão em análise pelas autoridades competentes.
Esse apagão prolongado novamente trouxe à tona debates sobre a qualidade da infraestrutura urbana em grandes metrópoles, a eficiência das concessionárias privadas e sua regulação, e a capacidade do poder público de garantir serviços básicos em situações de crise — especialmente em bairros com grande densidade de árvores, que apresentam risco recorrente em tempestades fortes.
Para o dono do restaurante em Pinheiros, porém, as discussões institucionais pouco aliviam o presente imediato: a sobrevivência do negócio e a manutenção de empregos dependem de uma resposta rápida e concreta — não apenas de promessas de investimentos futuros.
Este caso é um lembrete duro de que, em uma cidade como São Paulo, a infraestrutura urbana não pode ser apenas um plano no papel, mas uma realidade robusta que suporte tempestades, evite prejuízos econômicos e proteja a rotina das pessoas que vivem e trabalham na cidade.

