Quantas vezes uma mulher precisa dizer “acabou” até que sua palavra seja respeitada?
A morte da farmacêutica Daniele Guedes Antunes, assassinada a facadas pelo ex-marido em Santo André, não é um caso isolado — é a repetição cruel de um roteiro que o Brasil conhece bem demais.
Daniele tinha 38 anos. Trabalhava, sustentava rotinas, criava dois filhos.
Foi morta dentro da própria casa, no espaço que deveria ser o último reduto de segurança.
O crime aconteceu numa manhã comum de domingo.
Por volta das 8h15, a Polícia Militar foi acionada para uma ocorrência de violência doméstica.
Ao chegar, os policiais encontraram Daniele caída no chão.
Ao lado dela, Cristian Antunes, ex-marido, deitado, ainda no cenário do crime.
Ele confessou.
Sem rodeios, sem fuga, sem negação.
O motivo alegado é tão antigo quanto perverso: ele não aceitava o fim do relacionamento.
Vinte anos de casamento transformados, no imaginário do agressor, em direito de posse vitalício.
A separação, para ele, não era uma escolha dela — era uma afronta pessoal.
E como em tantos outros casos, a resposta foi a violência extrema.
O detalhe mais devastador está longe da estatística policial.
A filha mais nova do casal, de apenas 11 anos, estava em casa e presenciou o assassinato da própria mãe.
Esse é um dano que não termina com o boletim de ocorrência.
É uma cicatriz psicológica que acompanhará essa criança pela vida inteira.
Feminicídios raramente são explosões repentinas.
Eles costumam ser o último ato de uma escalada silenciosa: controle, ciúmes, ameaças, medo.
Quando a polícia chega depois, o sistema já falhou antes.
Falhou na prevenção, na escuta, na proteção efetiva.
É sintomático que o agressor não tenha tentado fugir.
Em muitos desses crimes, existe a convicção íntima de que a punição é secundária — ou negociável.
A casa, nesse contexto, deixa de ser lar e vira território.
O relacionamento deixa de ser vínculo e vira domínio.
O feminicídio não nasce da raiva momentânea.
Ele nasce da ideia profundamente enraizada de que a mulher não é um sujeito autônomo.
Daniele não morreu apenas porque terminou um casamento.
Morreu porque ousou existir fora dele.
Enquanto o debate público insistir em tratar esses crimes como “tragédias passionais”, nada muda.
Paixão não mata. Posse mata.
A pergunta que permanece, incômoda e urgente, é sempre a mesma:
quantas Daniele ainda precisarão morrer — e quantos filhos assistir — até que o “não” de uma mulher seja finalmente entendido como definitivo?

