Nesta reportagem, trazemos os detalhes de mais um episódio dramático que reverbera entre os policiais do Rio — e que escancara os custos pessoais da vocação à força pública. Um agente da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ), baleado durante uma operação recente, fez um relato marcante sobre o apoio recebido: “Ela permaneceu ao meu lado quando eu achei que estava tudo acabado”. A frase brota como um grito de gratidão no cenário de dor, incerteza e esperança que se desenha para ele e para sua família.
O policial atingido é Felipe Marques Monteiro, piloto do helicóptero da coordenadoria aérea do grupo especial da PCERJ — a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE). Ele foi alvo de um disparo de fuzil na cabeça durante uma incursão policial na comunidade da Vila Aliança, na zona oeste do Rio, em 20 de março de 2025.
O tiro atravessou o crânio do agente, ocasionando a perda de aproximadamente 40% da estrutura óssea. A gravidade da lesão o levou a ser internado inicialmente no Hospital Municipal Miguel Couto, em estado considerado gravíssimo.
Após o primeiro atendimento de emergência, Felipe foi transferido para o Hospital São Lucas, em Copacabana. Desde então, a recuperação dele tem contado com esforço intenso de médicos e com perseverança de quem permanece ao seu lado. A mulher dele, Keidna Marques, decidiu não sair do seu lado: todos os dias viaja entre sua casa em Niterói e o hospital, dedicando-se integralmente à sua recuperação.
Keidna descreveu os momentos iniciais após o disparo como de pânico e incerteza. “Viver assim é difícil”, admitiu, buscando forças nos pequenos avanços do marido — no abrir de olhos, nos mínimos movimentos, na possibilidade de dias melhores.
O testemunho de Felipe — resumido naquela frase emblemática — transcende o drama individual. Ele expõe as fragilidades humanas por trás de fardas e helicópteros, revelando o impacto emocional de estar no front da segurança pública. A companheira não representa apenas um porto seguro: tornou-se símbolo da resiliência diante da adversidade.
O contexto dessa tragédia é composto por uma sequência de operações intensas nas favelas do Rio, marcadas por risco extremo e elevado grau de violência. Nos últimos meses, outras ações policiais resultaram em feridos e mortes — tanto de criminosos quanto de agentes de segurança.
Entre os exemplos mais recentes está a Operação Contenção, deflagrada em 28 de outubro de 2025, que mobilizou cerca de 2,5 mil agentes para cumprir mandados nos complexos da Complexo da Penha e Complexo do Alemão. A ação resultou em dezenas de mortes, incluindo a de cinco policiais.
Apesar da gravidade dos ferimentos, Felipe tem apresentado sinais graduais de melhora. Há relatos de evolução clínica, embora o trajeto ainda seja longo e cheio de incertezas. A cada dia de luta, a presença de Keidna tem sido fator determinante para manter a esperança viva.
O relato do policial repercute nas redes sociais e entre colegas da corporação, reacendendo a solidariedade nas fileiras da segurança pública e impulsionando reflexões sobre o sacrifício e os riscos inerentes à profissão. A frase — “Ela permaneceu ao meu lado quando eu achei que estava tudo acabado” — tornou-se símbolo de gratidão, amor e humanidade em meio à dor.
A história de Felipe e Keidna convida também a reflexão sobre os custos colaterais das operações policiais: famílias marcadas pela imprevisibilidade, carreiras interrompidas, e vidas remodeladas pela violência que deveria ser combatida para preservar a ordem.
Para a sociedade e para o Estado, o caso reforça a urgência de medidas de apoio a agentes feridos em serviço — desde assistência médica especializada até suporte psicológico e financeiro às famílias. A segurança pública, afinal, não depende apenas de armamentos e estratégia, mas também de valorização e cuidado humano.
É possível que o futuro de Felipe ainda guarde longos capítulos de luta pela recuperação. Mas, independentemente do resultado, sua declaração ficará como um testemunho da força invisível que sustenta toda operação de paz: o cuidado, a lealdade e o amor de quem não larga a mão do outro quando o destino parece selado.
Este episódio, emblemático e doloroso, merece atenção tanto pelo sacrifício individual quanto pelo impacto coletivo. Ele nos lembra que por trás de cada operação há vidas reais — e que, muitas vezes, a maior coragem está em sobreviver.

