A trajetória da pesquisadora Márcia Mortari, da Universidade de Brasília (UnB), é um notável exemplo de como a experiência pessoal e a ciência de ponta podem se convergir para gerar avanços médicos. Diagnosticada com câncer de mama, Mortari usou sua própria luta como motor para uma pesquisa que revelou uma substância promissora: uma proteína presente no veneno de um tipo de marimbondo capaz de destruir seletivamente células tumorais de câncer de mama e melanoma.
Da Dor Pessoal à Descoberta Científica
A descoberta de Márcia Mortari, que é neurobióloga e especialista em venenos e toxinas, transcende o laboratório. O fato de ela ter sido diagnosticada com câncer de mama adiciona uma camada de urgência e propósito à sua pesquisa. Ela transformou o trauma da doença em motivação acadêmica, buscando soluções inovadoras na área em que já era especialista.
A substância em questão, isolada do veneno do marimbondo, demonstrou em testes in vitro uma capacidade notável:
Seletividade: A proteína consegue destruir células tumorais de dois subtipos agressivos de câncer de mama, enquanto preserva as células sadias.
Versatilidade: Os testes também obtiveram resultados positivos contra células tumorais de melanoma (câncer de pele), indicando um potencial de aplicação mais amplo.
Essa ação seletiva é o “Santo Graal” na pesquisa oncológica, pois minimiza os efeitos colaterais devastadores da quimioterapia tradicional, que ataca indiscriminadamente células tumorais e sadias.
Do Laboratório ao Protocolo Humano
A notícia de que a substância está em fabricação laboratorial e que os testes de segurança em humanos estão em andamento sinaliza que o projeto está avançando para as fases clínicas, as mais críticas e regulamentadas do desenvolvimento de um novo medicamento.
O ceticismo nos obriga a ser cautelosos:
Fase de Segurança: Os testes atuais são focados principalmente em segurança e tolerância (Fase 1). O sucesso nessa fase não garante a eficácia final em pacientes, mas é um passo obrigatório e encorajador.
Tempo de Desenvolvimento: O caminho da bancada do laboratório até o medicamento final disponível na farmácia é longo, exigindo anos de testes de eficácia (Fase 2 e 3), aprovação regulatória da Anvisa e produção em escala.
No entanto, o uso de peptídeos e toxinas como base para medicamentos oncológicos é uma área de pesquisa promissora globalmente, e o Brasil se posiciona na vanguarda desse campo com o trabalho da UnB.
A Biodiversidade como Farmácia
A descoberta da pesquisadora reforça a importância estratégica da biodiversidade brasileira como fonte inexplorada de compostos bioativos. O veneno de animais, que é uma complexa mistura de proteínas e peptídeos desenvolvida para defesa, frequentemente contém substâncias com alto potencial terapêutico, como já visto em medicamentos derivados de veneno de cobra (para hipertensão).
O “e daí” da pesquisa de Márcia Mortari é a injeção de esperança para milhares de pacientes com câncer de mama e melanoma, ao mesmo tempo em que sublinha a necessidade de investimento contínuo em pesquisa básica e no financiamento de instituições científicas como a UnB.
A pesquisadora, ao usar sua história, não apenas buscou a cura para si, mas abriu um novo e promissor caminho para a oncologia nacional e global.
O estudo fortalece o campo da toxicologia aplicada no Brasil.
O Câncer de Mama e a Inovação
A busca por tratamentos menos invasivos para o câncer de mama é constante, e essa proteína do marimbondo oferece uma via de inovação.
O avanço rápido do projeto dependerá de colaborações multidisciplinares (químicos, farmacêuticos e oncologistas).
O Financiamento da Pesquisa
O caso serve como um argumento forte para a priorização do financiamento público à ciência nacional.
A comunidade científica aguarda ansiosamente os resultados de eficácia (Fase 2).
O desenvolvimento segue o rigoroso protocolo regulatório da Anvisa.
A história de Márcia Mortari é uma inspiração para pesquisadoras e pacientes.
O sucesso pode significar uma contribuição brasileira de peso para a oncologia global.
O fato de a substância já estar em fabricação laboratorial facilita a escalabilidade da produção, caso os testes sejam positivos.
A descoberta reforça o poder curativo e químico da natureza.
A chave da pesquisa é a seletividade do peptídeo, que ataca apenas as células doentes.

