Uma mãe brasileira, Nívia Estevam, residente em Portugal, vive um momento de grande turbulência após seu filho de 9 anos sofrer a amputação parcial de dois dedos em uma escola portuguesa. O episódio, denunciado por ela como resultado de bullying, desencadeou uma série de represálias que a levaram a abandonar seu emprego e sua casa.
O garoto estudava na Escola Básica Fonte Coberta, em Cinfães, distrito de Viseu, quando, de acordo com depoimentos da mãe, dois colegas pressionaram a porta do banheiro sobre os dedos dele, provocando a mutilação. A versão oficial inicial da escola teria sido a de que se tratava de um “acidente”.
A gravidade do caso ganhou repercussão nas redes sociais, e Nívia usou essas plataformas para denunciar não apenas o acidente, mas também o que descreve como hostilidade da comunidade escolar contra ela e sua família. Segundo ela, outros pais teriam questionado e criticado sua postura, tornando a convivência insustentável.
Diante do assédio, a mãe optou por se mudar de cidade. Ela relata que, por causa das represálias, precisou abandonar sua casa — e também deixou seu emprego. A mudança foi considerada urgente para preservar a integridade familiar e garantir a segurança emocional do filho.
A repercussão também mobilizou a comunidade jurídica brasileira em Portugal. Um coletivo com cerca de 24 advogados, muitos deles brasileiros, se organizou para prestar apoio à família, oferecendo assistência legal e também psicológica. Uma das advogadas envolvidas no caso é Catarina Zuccaro, que se comprometeu a mover ações civis contra a escola e possivelmente o Estado português, se houver falha na vigilância do menor.
Na avaliação de Catarina, o registro do episódio como “brincadeira” pela escola minimiza a gravidade: ela afirma que atribuir a mutilação a uma simples brincadeira “falseia a realidade e desresponsabiliza quem tinha obrigação de prevenir, agir e comunicar”.
As investigações internas foram acionadas pela Inspeção-Geral da Educação e Ciência de Portugal, que iniciou apuração dos fatos. Além disso, o Consulado Brasileiro no Porto entrou no caso, pedindo providências e oferecendo suporte jurídico e psicológico à mãe e à criança.
Diplomatas brasileiros também solicitaram às autoridades portuguesas esclarecimentos formais sobre as circunstâncias da agressão, especialmente diante das suspeitas de motivação xenofóbica e racista. Nívia é negra, e ela alega que seu filho já sofria bullying por discriminação racial antes do episódio trágico.
Desde o incidente, a família recebe apoio emergencial de redes solidárias: advogados e grupos de apoio social estão envolvidos para garantir que direitos sejam protegidos e que a criança receba atendimento adequado. A prioridade, segundo eles, é assegurar a reparação dos danos físicos e psicológicos sofridos pelo menino e por sua mãe.
A advogada Ana Paula Filomeno, que também integra o coletivo, afirmou que a abordagem legal incluirá ações em esferas civil, administrativa e criminal. Ela destaca o “dever de guarda e vigilância” que a escola tem para com os alunos enquanto estão sob sua responsabilidade.
Entre as medidas exigidas pelo coletivo, consta a preservação de provas: imagens de câmeras da escola, registros no livro de ocorrências, comunicações internas e escalas de vigilância devem ser recolhidas para fundamentar as investigações. Também há demanda por apoio psicossocial para a criança e sua mãe, em articulação com parcerias institucionais.
A comunidade jurídica ressalta ainda que o episódio pode ter implicações mais amplas: se confirmado que houve omissão da escola ou conivência institucional, poderá haver responsabilização também do Estado português.
Para Nívia, a mudança forçada e o abandono do trabalho são mais do que consequências práticas: simbolizam a perda da paz e da segurança que ela buscava para seu filho. Ela afirma que, ao denunciar, não quis apenas justiça para a lesão física, mas também visibilidade para a xenofobia que teme ter motivado o fato.
Já do ponto de vista institucional, o caso coloca em evidência a necessidade de protocolos escolares mais rígidos para prevenção e resposta a incidentes de violência entre alunos, especialmente quando há denúncias de bullying com base em fatores raciais ou étnicos.
Especialistas em proteção infantil alertam que a responsabilização das escolas precisa ir além da compensação financeira: deve haver transformações culturais para garantir ambientes seguros para todos os alunos, sem descartar os afetados pelo preconceito.
A repercussão pública do caso também gerou pressão política. A coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Mariana Mortágua, levantou questionamentos junto ao Ministério da Educação português, exigindo apuração da influência de racismo nas escolas no país.
Para o consulado brasileiro, o episódio representa uma violação de direitos básicos. Representantes diplomáticos reforçaram que a proteção consular não se limita ao retorno ao Brasil, mas deve apoiar a família localmente sempre que houver risco ou discriminação.
Enquanto isso, a comunidade brasileira em Portugal acompanha de perto os desdobramentos. Muitos veem o episódio como reflexo de desafios enfrentados por imigrantes e crianças negras em escolas europeias, e pedem medidas estruturais de combate à xenofobia institucional.
As próximas etapas incluem a formalização das denúncias, coleta de provas e, possivelmente, ações judiciais contra a escola e autoridades locais. A família espera que a repercussão se traduza em mudanças reais, não apenas em compensações simbólicas.
Em última instância, o caso de Nívia e seu filho levanta um alerta sobre vulnerabilidade social e racial de imigrantes na Europa: mostra como tragédias individuais podem revelar fissuras profundas em instituições que deveriam proteger as crianças, sobretudo as mais fragilizadas.

