A edição The World Ahead 2026, da revista The Economist, apresenta um panorama global cheio de incertezas e transformações profundas. Sob a curadoria de Tom Standage, a publicação destaca dez tendências que, segundo a equipe editorial, terão papel central no cenário geopolítico, econômico, tecnológico e social no próximo ano.
Standage abre sua análise afirmando que 2026 será marcado por um alto grau de instabilidade, especialmente em razão da influência persistente de Donald Trump nas normas internacionais de diplomacia, comércio e alianças. A visão do editor é que seu estilo não convencional deverá seguir moldando os rumos globais.
Um dos grandes marcos será o 250º aniversário dos Estados Unidos, um momento simbólico que poderá ampliar divisões internas. Standage prevê narrativas antagônicas sobre passado e presente americano — entre democratas e republicanos — durante as comemorações.
No plano externo, o “deriva geopolítica” aparece como outro ponto-chave. A revista sugere que o mundo poderá ficar ainda mais fragmentado, com analistas debatendo se estamos diante de um novo conflito frio — entre blocos liderados por Estados Unidos e China — ou de uma estrutura esférica influenciada por acordos transacionais.
O tema “Guerra ou paz?” também é central. Apesar de uma possível trégua em Gaza, Standage alerta para conflitos persistentes na Ucrânia, no Sudão e em Mianmar. Há ainda a previsão de provocação em zonas cinzentas, por parte da Rússia e da China, em regiões como o Ártico, o mar do Sul da China, bem como no espaço cibernético e orbital.
Para a Europa, o desafio será dobrado. O continente deverá equilibrar aumento de gastos militares, déficit econômico e uma agenda verde, ao mesmo tempo em que tenta evitar que a austeridade estimule a ascensão de partidos de extrema-direita.
A China, por sua vez, poderia colher oportunidades. Apesar dos problemas internos — como deflação e baixo crescimento industrial —, as políticas “America First” de Trump podem abrir espaço para Pequim expandir sua influência global, especialmente no Sul global.
No campo econômico, há preocupação com a sustentabilidade fiscal das nações mais ricas. Segundo Standage, o risco de uma crise no mercado de títulos cresce, especialmente se os países continuarem vivendo acima de suas posses.
A tecnologia não fica fora do radar. Em particular, o investimento massivo em infraestrutura para inteligência artificial gera dúvidas: seria uma bolha prestes a estourar? Ou uma base sólida para inovações duradouras? O editor questiona qual será o impacto real no emprego e na economia.
No que toca às mudanças climáticas, o cenário se mostra misto. Standage destaca que manter o limite de aquecimento a 1,5 °C pode estar fora de alcance, e que há resistências políticas às renováveis. Mesmo assim, tecnologias limpas, como a energia geotérmica, prosperam em partes do Sul global.
Uma tendência menos esperada é a discussão sobre valores esportivos. Em 2026, a Copa do Mundo será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México — um evento que pode sofrer com tensões políticas. Além disso, destaca-se a polêmica dos “Enhanced Games” em Las Vegas, com atletas usando substâncias para melhorar o desempenho.
Na área da saúde, Standage chama a atenção para uma revolução farmacêutica. Surgirão medicamentos baseados em GLP-1, similares ao Ozempic, mais baratos e em forma de pílula. Isso poderá ampliar o acesso, mas também levantar dilemas éticos sobre “melhoria corporal”.
Outra novidade na edição é a seção especial “Mapping 2026”, que usa mapas para analisar como a geografia moldará os principais temas globais. Esse recurso visual ajuda a entender como regiões diferentes estarão interligadas por conflitos, comércio e tecnologia.
Além disso, a revista traz previsões da equipe de “superforecasting” do Good Judgment, oferecendo cenários futuros baseados em probabilidades refinadas por especialistas.
Contribuem também pensadores de peso por meio de artigos “By Invitation”: entre eles, Kaja Kallas (Comissão Europeia), Mark Carney (ex-primeiro-ministro do Canadá), Nandan Nilekani (Infosys) e Kristalina Georgieva (FMI).
Standage enfatiza que, embora 2026 prometa ser um ano de turbulência, ele também pode mostrar para onde o mundo está se movendo. As escolhas feitas nesse momento terão impacto duradouro.
A questão da dívida e dos mercados emergentes aparece como uma preocupação persistente, especialmente se os ricos países não equilibrarem os gastos com responsabilidade.
Sobre a IA, há incerteza quanto à sua sustentabilidade: se uma bolha vier a estourar, ainda assim a tecnologia pode trazer mudanças fundamentais, assim como ocorreu com ferrovias, eletricidade e internet no passado.
No front climático, o impulso de tecnologias verdes no Sul global pode contrastar com a relutância política em países como os Estados Unidos, segundo Standage.
A aproximação do aniversário dos Estados Unidos renova debates sobre identidade nacional e futuro político, enquanto as divisões internas podem se tornar mais evidentes.
Para as empresas e governos, a lição central é preparar-se para um ano de decisões complexas, em que política, economia, tecnologia e ética irão se entrelaçar de formas inéditas.
Em síntese, a previsão de The Economist para 2026 sugere que estamos entrando em um momento em que velhas estruturas estão se quebrando, novas alavancas de poder emergem e, para navegar esse terreno, será necessário tanto visão estratégica quanto flexibilidade.

