A cada 3 dias a ‘soberania’ bate a porta de um cidadão! Avanço das facções força moradores a abandonar suas casas

A cada três dias, em média, um cidadão é expulso de sua casa no Ceará por grupos criminosos que disputam controle territorial. Esse dado alarmante consta em relatórios da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) do Estado, que registrou 219 casos de “deslocamento forçado” entre janeiro de 2024 e setembro de 2025 — cenário que tem sido descrito como uma expressão brutal da soberania paralela exercida por facções.

Grande parte dessas expulsões ocorre na capital, Fortaleza, onde 143 registros foram identificados, afetando ao menos 49 bairros. Em cidades da Região Metropolitana, como Pacatuba, Morada Nova e Maranguape, a situação também é grave, segundo os levantamentos da SSPDS.

De acordo com as autoridades, as motivações por trás dessas remoções forçadas têm ligação direta com o controle de territórios por facções que atuam no tráfico de drogas, na extorsão e em outras atividades criminosas. Os grupos citados nas investigações incluem organizações como o Comando Vermelho (CV), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Terceiro Comando Puro (TCP).

O fenômeno tem deixado comunidades inteiras vulneráveis: moradores relatam ameaças, saques de pertences pessoais e abandono de suas casas. Há relatos de imóveis que foram esvaziados completamente, tornando-se “vilas desertas” controladas por criminosos.

As expulsões têm sido investigadas pelo 30º Distrito Policial (30º DP) do Ceará. A apuração ganhou força após a prisão, em flagrante, de dois homens — associados ao TCP — acusados de intimidar moradores para sair de um condomínio em Jangurussu.  Segundo a denúncia, eles também teriam roubado pertences das famílias expulsas.

A Justiça já decretou prisão preventiva para esses suspeitos, demonstrando que as investigações estão ganhando corpo.  Para a polícia, esses casos simbolizam a face mais dura da criminalidade organizada: não apenas tráfico, mas um poder paralelo que dita quem pode ou não permanecer em determinados bairros.

Especialistas ouvidos por autoridades locais destacam que esse tipo de “soberania” paralela — quando facções impõem regras como se fossem um Estado dentro do Estado — agrava a violência e reforça a exclusão social.

Esses deslocamentos forçados também geram impacto demográfico: famílias que antes viviam em regiões densas de periferia se veem obrigadas a migrar para outras áreas, muitas vezes sem infraestrutura adequada e com pouca perspectiva de retorno.

A insegurança gerada por essas expulsões alimenta uma percepção generalizada de que a lei formal é incapaz de proteger todos os cidadãos de maneira igual. Comunidades afetadas relatam abandono institucional, com dificuldades para acessar serviços públicos básicos após o “controle paralelo” se estabelecer.

Por outro lado, o fenômeno chama atenção para a necessidade de políticas de segurança mais estratégicas, capazes de reconquistar territórios ocupados por facções e garantir a presença regular do Estado em áreas vulneráveis.

Pesquisadores em segurança pública sugerem que algo similar ocorre em outras regiões do Brasil, onde facções criminosas também disputam espaços urbanos.  Em partes da Amazônia, por exemplo, facções têm influência sobre assentamentos e comunidades locais, segundo estudo recente.

No Rio de Janeiro, esse poder paralelo também aparece de forma simbólica: grupos criminosos têm forte presença em favelas, disputam território e criam “governos paralelos”, segundo especialistas. Essas dinâmicas reforçam a noção de uma “soberania do crime” que desafia a autoridade estatal.

Organizações de direitos humanos alertam para os efeitos dessas operações territoriais sobre a população civil. Durante operações policiais em favelas, por exemplo, moradores denunciaram violações: prisões arbitrárias, violência e instabilidade na vida comunitária.

Além disso, o deslocamento forçado está associado a traumas severos para as famílias. A ruptura com laços comunitários, a insegurança constante e a perda de bens são relatadas por muitos como eventos que marcam de forma duradoura suas vidas.

Para alguns analistas, esse fenômeno é parte de uma lógica criminosa mais ampla, que usa expulsões como ferramenta estratégica para consolidar domínio territorial, impor regras próprias e garantir espaço de atuação para tráfico e extorsão.

As autoridades estaduais e federais enfrentam um dilema complexo: restabelecer a autoridade institucional sem, ao mesmo tempo, prejudicar ainda mais a população sofrida. A resposta exige ações coordenadas de policiamento, políticas sociais e reintegração comunitária.

A SSPDS do Ceará informa que tem intensificado operações de inteligência para mapear essas facções, rastrear líderes e prevenir novos episódios de expulsão, mas isso demanda recursos e tempo.

Enquanto isso, as vítimas dessas remoções têm procurado apoio tanto de órgãos públicos quanto de organizações da sociedade civil para denunciar e resistir ao que muitos chamam de usurpação de seus lares pelo crime organizado.

A cada três dias, portanto, não é apenas uma casa que é abandonada: uma parte da vida de uma família é arrancada, deixando para trás um rastro de medo, injustiça e uma questão aberta para a sociedade brasileira: até quando a “soberania” paralela continuará marcando territórios inteiros?

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