Ex-ministro, Fabio Wajngarten, sobre prisão de Bolsonaro: “injustiça que corrói e dói”

É possível que uma condenação judicial de alto impacto seja tecnicamente legal e, ainda assim, corrosivamente injusta aos olhos do público?

A pergunta transcende o caso específico da prisão de um ex-presidente.

Ela toca o cerne da crise de legitimidade que assola as instituições em democracias polarizadas.

Não se trata de absolver o réu político por conveniência.

Trata-se de analisar o teatro jurídico que converteu o processo em um espetáculo de reafirmação de poder.

O Direito, quando se curva à pressão da narrativa, mesmo que sob o manto da legalidade, perde sua aura de neutralidade.

A velocidade e a composição atípica do julgamento, por exemplo, não são meros detalhes procedimentais.

Elas são percebidas por milhões como indícios de um acerto de contas.

Essa percepção é a verdadeira injustiça que corrói a base do sistema.

A dor sentida pelos apoiadores não é apenas pela figura condenada.

É a dor da impotência diante de um sistema que parece operar com pesos e medidas diferentes para aliados e adversários.

O dano real reside na fissura aberta entre a letra da lei e o senso comum de equidade.

O ceticismo não é apenas um sentimento, mas um mecanismo de defesa contra a hipocrisia institucional.

Quando o Judiciário se engaja na batalha política, ele se despolitiza, e isso é o que dói profundamente no tecido social.

O povo não é formado por juristas.

Ele entende de simetria e de coerência.

A ausência de uma ou de outra é imediatamente codificada como perseguição.

Analogicamente, o sistema de Justiça tornou-se uma orquestra que toca apenas para um lado da plateia, ignorando o dissenso.

Em vez de apaziguar, a decisão acirra as tensões, transformando a sentença em um combustível para a mobilização política.

A narrativa de “salvaguarda da democracia” pode, ironicamente, minar a própria crença no processo democrático.

Pois a confiança nas instituições não se impõe por decreto.

Ela se constrói na lenta, enfadonha e rigorosa aplicação imparcial da norma.

Não se deve esperar lágrimas do adversário, mas o respeito pelo rito.

Quando o rito é questionado, todo o resultado é maculado por uma sombra de dúvida.

O impacto humano dessa narrativa é um exército de eleitores que agora veem a Justiça como um braço do poder, e não um contrapeso.

Isso é um convite aberto à anomia e à radicalização permanente.

O legado desta condenação talvez não seja a punição de um indivíduo.

Será a degradação da fé no único árbitro que deveria estar acima da disputa: a Lei.

O preço dessa corrosão será pago por todos nós, em moedas de instabilidade e descrença duradoura.

A história não se encarregará de desmoronar narrativas, como alguns esperam.

Ela simplesmente registrará o momento em que a Justiça optou por ser aguda, em vez de profunda.

Isso é o que resta quando o timing político se sobrepõe à sobriedade do templo jurídico.

Este vídeo de Ayres Brito, ex-ministro do STF, comenta o julgamento da denúncia contra o ex-presidente e oferece uma análise cuidadosa dos pontos mais sensíveis do caso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Detetive particular diz que pessoas nesses 5 empregos são as mais propensas a trair

Nova lei pune com multa de até R$ 10 mil quem deixar animais sozinhos por mais de 36 horas