A Marcha dos Povos, que reuniu uma multidão (cerca de $70$ mil pessoas, segundo a organização) nas ruas de Belém durante a COP30, transformou a capital paraense na “Zona Azul” da sociedade civil. O protesto não foi apenas um eco da Conferência do Clima das Nações Unidas; foi um confronto direto entre o discurso oficial e as urgências da base.
A Cobrança por Roteiro e a Hipocrisia Fóssil
O principal objetivo da manifestação foi cobrar dos países um “mapa do caminho” para o fim do uso de combustíveis fósseis. Essa demanda confronta diretamente a hipocrisia climática global, onde a maioria dos países desenvolvidos advoga por metas ambiciosas enquanto continua dependente de petróleo, gás e carvão.
A presença das ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas) é simbólica. Elas endossam o direito à manifestação e reforçam o compromisso brasileiro com o desmatamento zero.
No entanto, a própria manifestação expôs as contradições internas do Brasil:
Críticas aos Projetos Nacionais: Manifestantes exibiram cartazes contra a exploração de petróleo na Margem Equatorial, a construção da ferrovia Ferrogrão e projetos de usinas hidrelétricas, todos projetos com forte impacto ambiental e que geram intenso debate dentro do próprio governo federal.
A marcha, portanto, não apenas pressionou a ONU, mas também pressionou o Brasil a alinhar sua matriz energética e de infraestrutura ao discurso de liderança climática.
A Emergência da Justiça Climática
A mobilização de ativistas, movimentos sociais (MST, extrativistas, quilombolas) e lideranças indígenas reitera que a crise climática é, fundamentalmente, uma questão de justiça social.
O deputado Túlio Gadelha (Rede-PE) sintetizou essa visão ao cobrar que os países do Norte Global “paguem a conta” do financiamento climático. São as populações vulnerabilizadas do Sul Global, especialmente na Amazônia, que sofrem o impacto imediato do aumento da temperatura e da destruição dos biomas.
A Voz Feminina e a Reparação Histórica
A Bancada Feminina na COP30 adicionou uma camada crucial ao debate, ao lançar um manifesto que reivindica a participação efetiva e a reparação histórica das mulheres na agenda climática. As demandas por:
Destinação de, no mínimo, $20\%$ dos recursos de financiamento climático para projetos liderados por mulheres.
Criação do Fundo “Mulheres Guardiãs dos Biomas”.
Implantação de cotas femininas nos espaços de decisão.
Essas pautas mostram que o combate ao aquecimento global deve ser indissociável do combate às desigualdades de gênero e da exclusão feminina dos espaços de poder ambiental.
A Marcha dos Povos em Belém foi a demonstração de força da sociedade civil que garantiu que, apesar das negociações fechadas da COP30, o clamor popular por um futuro livre de combustíveis fósseis e a defesa dos biomas fossem a manchete da semana.

