O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou neste domingo um novo programa de repasse direto de renda que promete pagar pelo menos US$ 2 mil a cada cidadão de baixa e média renda. Segundo ele, a medida será financiada integralmente pelas receitas obtidas com tarifas sobre importações. O plano, batizado informalmente por apoiadores como “dividendo tarifário”, lembra programas de transferência de renda como o Bolsa Família, adotado no Brasil, mas com características adaptadas à realidade econômica norte-americana.
Em publicação feita na plataforma Truth Social, Trump afirmou: “(A dividend of at least $2000 a person — not including high income people! — will be paid to everyone)”. A mensagem reforçou que as famílias de alta renda ficarão de fora do benefício, que, segundo ele, será uma forma de devolver ao povo americano parte do que o governo arrecada com tarifas cobradas de países exportadores para os Estados Unidos.
A proposta surpreendeu analistas econômicos e políticos em Washington, por unir conceitos de política social e protecionismo comercial, bandeiras que raramente caminham juntas no cenário norte-americano. Para Trump, a iniciativa mostra que “(pessoas que são contra tarifas são tolas)”, e que as tarifas podem ser usadas não apenas como instrumento de defesa da indústria nacional, mas também como fonte de redistribuição de renda.
De acordo com dados oficiais, o Tesouro norte-americano já arrecadou cerca de US$ 195 bilhões em tarifas entre janeiro e setembro deste ano. O governo pretende destinar parte desse montante para financiar os pagamentos diretos às famílias, embora ainda não haja cronograma definido nem detalhes sobre critérios de elegibilidade.
Assessores da Casa Branca afirmaram que o programa poderá assumir diferentes formatos, variando entre depósitos diretos, créditos fiscais ou reduções em impostos. Segundo fontes próximas ao Departamento do Tesouro, o objetivo é garantir que o benefício alcance o maior número possível de famílias de renda baixa e média, com foco especial em regiões industriais e agrícolas que ainda se recuperam dos impactos da pandemia e da inflação.
Mesmo sem um nome oficial, a proposta já é considerada por especialistas como o primeiro grande programa de transferência direta de renda com características universais na história dos Estados Unidos. O economista Scott Bessent, secretário do Tesouro, teria sido um dos articuladores da ideia, defendendo que parte das tarifas impostas à China, ao México e à União Europeia retornem “diretamente aos bolsos dos americanos”.
Ainda assim, há dúvidas sobre a viabilidade fiscal da medida. Estimativas preliminares indicam que o custo total do programa poderia ultrapassar US$ 400 bilhões, valor que superaria parte da arrecadação tarifária anual do país. Economistas alertam que, caso o repasse não seja compensado por cortes de gastos ou aumento de receitas em outras áreas, o plano poderia ampliar o déficit público.
A oposição democrata reagiu com cautela. Embora o Partido Democrata tradicionalmente apoie políticas de transferência de renda, membros do Congresso pedem mais clareza sobre como os recursos serão distribuídos e de que forma as famílias de baixa renda serão priorizadas. Para muitos parlamentares, a proposta parece mais uma manobra política em um ano pré-eleitoral do que uma política fiscal sustentável.
Por outro lado, apoiadores de Trump celebraram o anúncio como uma prova de que o presidente está “cumprindo a promessa de colocar o povo americano em primeiro lugar”. A proposta tem sido descrita por seus aliados como um “Bolsa Família à americana”, mas com recursos provenientes do comércio internacional, sem aumento de impostos internos.
A analogia com o programa brasileiro não é apenas simbólica. Assim como o Bolsa Família, o plano de Trump busca garantir um fluxo mínimo de renda para famílias vulneráveis, ajudando a estimular o consumo doméstico e reduzir desigualdades regionais. A diferença está na origem dos recursos: enquanto o programa brasileiro é financiado pelo orçamento federal, o americano seria sustentado por tarifas aplicadas a produtos importados.
No entanto, economistas apontam um paradoxo. As tarifas que geram os recursos também encarecem produtos importados, podendo pressionar a inflação e reduzir o poder de compra justamente das famílias que o programa pretende beneficiar. Essa contradição está no centro do debate econômico sobre a proposta.
Em termos políticos, a medida reforça a estratégia de Trump de se aproximar do eleitorado de renda média e baixa, grupo decisivo nas eleições presidenciais. A promessa de um cheque de US$ 2 mil em um contexto de desaceleração econômica e altos custos de vida pode funcionar como um impulso significativo à sua popularidade.
Ainda não há informações sobre quando os primeiros pagamentos seriam realizados. Segundo membros do governo, o Departamento do Tesouro está desenvolvendo um sistema de identificação para definir quem se enquadra na faixa de renda elegível e como o benefício será distribuído. A expectativa é que os detalhes sejam divulgados nas próximas semanas.
Enquanto isso, a proposta também desperta interesse no cenário internacional. Países parceiros comerciais dos Estados Unidos acompanham com atenção o movimento, temendo que o aumento das tarifas sobre exportações gere tensões adicionais nas relações comerciais. Para economistas estrangeiros, o plano de Trump representa uma “nova forma de política populista econômica”, misturando protecionismo e assistencialismo.
Nos bastidores da Casa Branca, há quem veja a proposta como um gesto simbólico, mais político do que prático. Fontes próximas ao presidente afirmam que Trump busca demonstrar que é possível promover justiça social sem recorrer ao aumento de impostos, apresentando uma alternativa “patriótica” de redistribuição de renda baseada no sucesso econômico dos Estados Unidos.
Críticos, porém, afirmam que o plano pode criar uma ilusão de prosperidade temporária. Para eles, o pagamento direto de US$ 2 mil, embora atraente, não resolve problemas estruturais como o custo da saúde, da moradia e da educação, que continuam sendo os maiores desafios para famílias de classe média e baixa no país.
Apesar das críticas, o anúncio de Trump marca um momento inédito na política econômica americana. O presidente tenta combinar o discurso nacionalista de defesa da produção interna com uma política social de impacto direto na renda das famílias, algo que poucos líderes republicanos haviam proposto antes.
A medida também pode redefinir o papel das tarifas na política econômica dos Estados Unidos. De ferramenta de pressão internacional, elas passariam a ser vistas como instrumento de financiamento social. Caso o plano avance no Congresso, os EUA poderão inaugurar uma nova era de redistribuição de renda associada à política comercial.
Por ora, o anúncio tem efeito mais simbólico que prático, mas já altera o debate político em Washington. A promessa de um pagamento direto de US$ 2 mil a milhões de americanos reforça o discurso de Trump de que seu governo é “do povo e para o povo”, mesmo que os detalhes técnicos ainda precisem ser esclarecidos.
Com isso, o presidente americano consolida mais um capítulo de sua estratégia econômica: transformar a arrecadação obtida com tarifas em uma espécie de dividendo nacional, aproximando sua política interna de modelos já testados em outros países, e abrindo espaço para um debate global sobre novas formas de redistribuição de riqueza.

