A carta de Paul McCartney à presidência da COP 30, solicitando um cardápio 100% livre de carne em nome da PETA, é mais do que um apelo nutricional; é um desafio de coerência ética lançado no epicentro do debate climático.
O músico usa uma analogia brutal – servir carne em uma cúpula do clima é como “distribuir cigarros em um evento de prevenção ao câncer” – forçando os organizadores a encarar a hipocrisia de um discurso.
O Peso da Proteína na Crise
O argumento de McCartney é apoiado por dados: a produção de carne, especialmente em escala industrial, é um dos maiores vetores de gases de efeito estufa, desmatamento (principalmente na Amazônia) e consumo de água.
A COP 30, sediada na porta da floresta, possui uma obrigação simbólica de alinhar sua operação interna com seus objetivos de preservação.
A revelação de que apenas 40% das refeições serão vegetarianas é vista pelo ceticismo como um sinal de falta de compromisso estrutural ou, pior, de concessão a lobbies.
A cúpula, destinada a salvar o planeta, parece relutante em transformar o próprio prato.
A Coerência no Prato e a Hipocrisia Verde
A crítica de McCartney é uma cobrança de pedagogia no mais alto nível.
A conferência do clima é um palco de exemplo. É ali que as nações e os líderes devem demonstrar, em atos concretos, a viabilidade de um futuro de baixo carbono.
Servir um cardápio majoritariamente carnívoro é um ruído de comunicação que mina a credibilidade de todo o evento. É a prova de que a mudança é imposta aos outros, mas evitada pelos próprios proponentes.
O custo ambiental da produção de carne, especialmente no Brasil, país com uma das maiores frotas bovinas do mundo, é inegável. A exclusão de carne seria um gesto político e ético de enorme impacto global.
O Dilema Cultural e a Resistência Local
É preciso reconhecer o dilema cultural por trás da resistência ao menu 100% vegetariano. A carne é profundamente enraizada na cultura gastronômica brasileira e amazônica.
No entanto, o evento não é uma feira culinária; é uma negociação de sobrevivência planetária. O ceticismo questiona se o conforto gustativo de alguns delegados vale o preço da incoerência global.
A COP 30, ao optar por uma solução de 40%, busca um meio-termo burocrático que falha em satisfazer tanto os ativistas quanto os tradicionalistas.
A carta de Paul McCartney é o convite final à ação radicalmente coerente. Se a conferência não conseguir dar o exemplo no prato, como poderá exigir sacrifícios ambientais de economias inteiras? A revolução climática começa no menu.


Ambos os lados estão errados