Prefeito diz que cidade do Paraná atingida por tornado terá que ser reconstruída

A declaração do prefeito de Rio Bonito do Iguaçu de que a cidade “terá que ser reconstruída” após o devastador tornado é uma admissão de derrota da infraestrutura local diante da fúria climática.

Essa afirmação, embora carregada de drama e urgência, deve ser analisada com um ceticismo doloroso: o que significa, de fato, “reconstruir” uma cidade de 14 mil habitantes varrida por um evento extremo?

A Fatura Simbólica e o Custo Real

Dizer que a cidade precisa ser reconstruída é reconhecer que a destruição ultrapassou a capacidade de reparo. Não se trata apenas de trocar telhas, mas de refazer o tecido urbano e social.

A reconstrução de uma cidade é um custo logístico e financeiro colossal que o caixa de um pequeno município não suporta.

O prefeito, ao vocalizar essa necessidade, está fazendo um apelo desesperado por intervenção federal e atenção midiática duradoura.

O desafio está em garantir que o dinheiro para a reconstrução não se perca na burocracia e nas falhas de gestão que, ironicamente, contribuíram para a fragilidade das construções originais.

Reconstruir Não é Refazer: O Imperativo da Resiliência

A reconstrução de Rio Bonito do Iguaçu não pode ser apenas uma réplica nostálgica do que foi destruído.

O principal erro seria erguer novamente as mesmas casas, com os mesmos materiais e as mesmas técnicas construtivas, sob a premissa falsa de que um tornado não voltará a ocorrer.

A nova cidade deve ser um laboratório de resiliência climática. Isso exige códigos de construção mais rigorosos, materiais reforçados contra ventos extremos e um planejamento urbano que incorpore áreas de refúgio.

O custo da reconstrução deve ser visto como um investimento em adaptação, e não apenas como uma despesa de emergência.

O Trauma e a Diáspora Interna

O que o prefeito não mede em sua declaração é o custo humano e psicológico da tragédia. A reconstrução de uma cidade é também a recomposição da memória e da comunidade.

A destruição de 80% do município cria o risco de uma “diáspora interna”, onde famílias, desassistidas, se veem forçadas a migrar para centros urbanos maiores, desmantelando o tecido social local.

O plano de reconstrução deve, portanto, ir além do concreto. Deve incluir apoio social e psicológico para reter os moradores e garantir que a cidade não se torne apenas um conjunto de prédios novos, mas um local viável para se viver.

A Janela de Oportunidade Cética

A tragédia abre uma janela cética de oportunidade. O desastre, por mais doloroso, força a sociedade a encarar a realidade da mudança climática e a urgência de políticas de adaptação.

O Brasil não pode mais tratar eventos extremos como o tornado do Paraná como anomalias isoladas; são a nova normalidade.

A reconstrução de Rio Bonito do Iguaçu será o primeiro grande teste para a capacidade do Estado brasileiro de se reerguer com inteligência e resiliência, fugindo da improvisação e do superficial.

O dinheiro da doação de celebridades e os recursos federais devem ser canalizados para construir uma cidade melhor, mais forte e, acima de tudo, mais segura do que a que foi varrida.

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