O rompimento de um reservatório da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa) no bairro da Prata, em Campina Grande, na Paraíba, é um tipo de desastre que transcende a calamidade natural. É a materialização violenta de uma falha de engenharia e gestão.
O incidente, que liberou uma torrente de água destruindo imóveis, arrastando veículos e culminando na morte de uma idosa acamada, expõe a fragilidade silenciosa das estruturas de serviço público.
A Força da Água Contra a Idade
A tragédia possui um elemento particularmente cruel: a morte de uma idosa acamada, Maria do Socorro Leal Teixeira de Araújo.
Contra a força repentina e impiedosa de milhões de litros de água, a vulnerabilidade física e a segurança do lar se dissolvem em segundos.
Esse fato destaca a negligência implícita em qualquer falha estrutural de grande porte: o risco é sempre desproporcional para os mais frágeis da sociedade.
A destruição de pelo menos três residências e o alagamento de dezenas de ruas são a prova de que a barreira entre o controle humano e o caos era apenas uma parede fina de concreto.
A Auditoria do Desastre
O reservatório, com capacidade para 9 milhões de litros de água, não rompeu por um terremoto ou ato terrorista. O colapso foi o resultado de uma falha estrutural ou de tubulação, conforme apontado pelos órgãos iniciais.
Isso exige uma investigação cética e rigorosa, indo além da nota de pesar da Cagepa. O foco deve estar na qualidade da manutenção, na periodicidade das inspeções e na idade da estrutura.
O processo de apuração interna anunciado é insuficiente. A sociedade exige uma auditoria externa e independente para determinar as responsabilidades.
O rompimento de um reservatório de água em um centro urbano é, em sua essência, um crime contra a segurança pública causado pela corrosão do tempo e, possivelmente, pela corrosão da fiscalização.
O Efeito Cascata da Interrupção
As consequências do colapso não se limitam à área atingida. O incidente interrompeu o abastecimento de água em 40 bairros de Campina Grande e em quatro municípios vizinhos.
O problema de Campina Grande torna-se um problema regional, demonstrando a fragilidade da interdependência em sistemas de infraestrutura críticos.
A promessa de restabelecimento em 24 a 48 horas é um lembrete do custo invisível do desastre: a interrupção da rotina, a escassez temporária e a insegurança hídrica.
A interdição de vias, a mobilização de Defesa Civil e a promessa de indenização total por parte do governo são as etapas padrão do caos, que não mitigam a origem do problema.
A Lição Amarga da Manutenção
O episódio de Campina Grande se soma aos alertas não atendidos sobre a necessidade crônica de manutenção das obras públicas brasileiras.
O custo de prevenir é sempre infinitamente menor que o custo de reparar – tanto em vidas quanto em dinheiro.
Este desastre é um lembrete amargo de que a infraestrutura envelhecida é uma bomba-relógio social.
A tragédia do rompimento não é apenas uma notícia, mas uma cobrança direta por transparência e responsabilidade na gestão dos serviços essenciais.

