Quando os Estados Unidos emitem uma nota de apoio e elogio às ações de segurança pública de um estado brasileiro como o Rio de Janeiro, o evento transcende a política local. Deixa de ser uma questão de segurança e vira uma peça no tabuleiro geopolítico.
O que está em jogo não é apenas a redução da criminalidade, mas a estabilidade percebida de um parceiro estratégico na América Latina.
O Foco Seletivo da Diplomacia
O endosso de Washington a operações contra o crime organizado no Rio deve ser lido com a lupa do ceticismo. A diplomacia raramente é altruísta.
Os EUA priorizam a segurança regional sob duas óticas principais: o combate ao narcotráfico (que tem ramificações diretas em seu território) e a garantia da estabilidade econômica (proteção de investimentos e comércio).
O elogio funciona como um sinal verde para a continuidade de determinadas táticas e estratégias, muitas vezes controversas, utilizadas pelas forças de segurança.
A mensagem implícita é: “A luta contra o crime organizado é a nossa luta, e a eficácia justifica o método.”
A Conexão Atlântica do Crime
O Rio de Janeiro, com seus portos e sua posição estratégica no Atlântico Sul, não é apenas um problema interno; é um nó logístico vital para as redes de tráfico internacional de drogas e armas.
O crime organizado carioca, especialmente as facções com poder de milícia e controle territorial, impacta diretamente a segurança e a economia global.
O apoio americano, nesse sentido, não é um cheque em branco à gestão estadual. É um investimento estratégico na desarticulação de rotas que os afetam.
Podemos especular sobre o aprofundamento da cooperação em inteligência, treinamento e, potencialmente, no fornecimento de tecnologia de vigilância.
O Risco da “Guerra às Drogas” Global
A intervenção ou o endosso externo traz consigo o risco de militarização e a reprodução de modelos falhos da “Guerra às Drogas” implementada em outras partes do continente.
A política de segurança, ao receber o aval internacional, ganha uma camada de legitimação que pode dificultar o escrutínio interno sobre a letalidade e os direitos humanos.
O elogio, embora positivo para a imagem do estado e para o moral das tropas, pode ser a pedra angular de uma abordagem mais bélica e menos focada em inteligência e reforma social.
O verdadeiro teste para o Rio não é a intensidade das operações, mas a perenidade das instituições e a redução da desigualdade que alimenta as fileiras do crime.
O Subtexto Político
O timing de um endosso internacional também carrega um subtexto político. Pode ser uma forma sutil de fortalecer a posição de certos atores políticos brasileiros ou de consolidar alinhamentos regionais em um momento de incerteza geopolítica global.
A cooperação em segurança é, muitas vezes, o cavalo de Troia para uma influência mais ampla.
O Rio de Janeiro se torna, assim, um laboratório onde a estabilidade local e a segurança global se encontram. O elogio americano é um lembrete de que o crime organizado no Brasil é uma commodity de exportação que a superpotência não pode ignorar.
O futuro da segurança carioca será escrito não apenas nas favelas, mas nos memorandos de entendimento entre Brasília e Washington.

