A recente movimentação dos Estados Unidos no território da Síria revela uma aposta estratégica clara contra a influência da Rússia e do Irã na região. Em meio a um cenário geopolítico conturbado, Washington parece reposicionar suas peças para conter Moscou e Teerã pelo prisma sírio. Segundo especialistas, trata-se de uma mudança de postura que visa exercer pressão indireta sobre os dois aliados que se impuseram no conflito sírio ao longo dos anos.
A base dessa aposta americana se sustenta no entendimento de que tanto a Rússia quanto o Irã aproveitam o colapso institucional da Síria para estender seus domínios regionais. Como observou o relatório do Institute for National Strategic Studies, o jogo de Moscou e Teerã em solo sírio busca criar “um escudo” contra o Ocidente e expandir redes de influência ao longo do Levante.
Nesse contexto, os EUA não parecem mais contentes em adotar uma atitude passiva. Conforme uma análise da Hoover Institution, a estratégia de contenção exige agora uma ofensiva — não necessariamente em larga escala — mas sim por meio de postura, poder de dissuasão e controle de recursos críticos. Washington parece disposto a preservar zonas de influência e impedir que Irã e Rússia se hegemonizem no sudeste da Síria.
As implicações são múltiplas. Em primeiro lugar, há o aspecto dos recursos energéticos e das rotas terrestres: desde Alepo até a fronteira com o Líbano, o Irã visa uma rota direta que conecte Teerã ao Mediterrâneo, via Iraque-Síria-Líbano. Isso desagrada profundamente a Israel e ao bloco ocidental.Em segundo lugar, a presença russa de longo prazo, com suas bases navais e aéreas, significa que o teatro sírio continua a ser uma frente de projeção para Moscou.
Do ponto de vista americano, a Síria se torna um palco de contenção dupla: ao mesmo tempo que limita o avanço iraniano, dificulta que a Rússia consolide uma vitória completa que poderia alterar o equilíbrio regional. Como explica a Brookings, o desafio é grande, porque “explorar a rivalidade entre Rússia e Irã tem vantagens, mas há limites claros”.
Há sinais concretos dessa nova aposta. Washington alterou sua abordagem para exigir que Moscou não permita facilitação ao Irã, especialmente no que diz respeito a portos sírios e à transferência de armas. Essas exigências demonstram que os EUA pretendem pressionar por meio de alavancas diplomáticas e econômicas, não apenas militares.
Em resposta, autoridades russas acusam os EUA de quererem “dividir a Síria” e criar um cenário de confrontação ampla. O general Sergei Rudskoi, chefe da Operações do Estado-Maior russo, afirmou que os EUA buscam “criar uma guerra de todos contra todos”. Essa reação evidencia a tensão crescente e o receio de Moscou de perder seu terreno estratégico.
Do lado iraniano, a situação também é crítica. O colapso do aliado sírio Bashar al‑Assad representaria um enorme revés para os planos de Teerã, que historicamente utilizou a Síria como túnel para armamentos a Hezbollah no Líbano. Conforme análise do United States Institute of Peace, tanto o Irã quanto a Rússia estariam entre os maiores perdedores estratégicos desse processo.
Para o governo dos EUA, portanto, a Síria ganha relevância não tanto por ser um “interesse vital” em si, mas como vetor de influência para barrar adversários maiores. A Brookings explica que “os EUA nunca consideraram a Síria um interesse central” e por isso não dispõem da vontade ou recursos para uma intervenção massiva. A lógica muda: trata-se de contenção, não de ocupação.
Nesse cenário, a diplomacia e as sanções ganham protagonismo. A aplicação da Caesar Syria Civilian Protection Act — que penaliza atores sírios, russos e iranianos — é exemplo do uso de ferramentas extramilitares para moldar o jogo. O objetivo é criar custos para quem desafia a ordem internacional estabelecida.
No plano operacional, Washington mantém presença limitada em setores selecionados da Síria, especialmente no nordeste, onde atua junto às forças curdas. Essa força menor, porém bem posicionada, serve como dissuasão para que Irã e Rússia não assumam completamente o território.
Ainda assim, o caminho não é livre. A coordenação entre Irã, Rússia e o regime sírio para expulsar forças americanas da Síria continua ativa, segundo o Institute for the Study of War. Os EUA enfrentam, portanto, não apenas os dois adversários geopolíticos, mas um cenário em que estes cooperam entre si.
Para os analistas, a clareza de missão torna-se essencial. Sem uma definição concreta de objetivos, os EUA correm o risco de se envolverem mais do que pretendem, algo que autores da Hoover já alertaram. A política de “metade-medida” pode acabar sendo contraproducente.
A nova abordagem também implica desafios domésticos. A opinião pública estadunidense está reticente com envolvimentos externos, sobretudo em conflitos que pareçam intermináveis. O fato de a Síria não ocupar mais as manchetes como antes torna difícil mobilizar apoio político robusto. Ainda assim, em círculos estratégicos, o valor simbólico permanece alto.
Em última instância, a aposta dos EUA na Síria visa criar um efeito de contenção regional: impedir que Irã e Rússia consolidem uma conexão entre o Golfo Pérsico e o Mediterrâneo via a Síria; bloquear facilitação de armas avançadas a grupos como o Hezbollah; e desenhar um mapa no qual Jerusalém, Ancara e Washington possam negociar com Moscou e Teerã em posição de força.
A execução dessa aposta exigirá paciência, coordenação com aliados e clara articulação entre diplomacia, sanções e operações militares-limitadas. Qualquer deslize pode ser aproveitado por adversários para transformar a Síria num novo tabuleiro conflitual.
Em síntese, os Estados Unidos apostam na Síria como parte de uma estratégia mais ampla para conter tanto a Rússia quanto o Irã. A abordagem é cautelosa, restrita e focada em alavancas de influência, não em ocupação. A incógnita permanece: se essa estratégia será suficiente para barrar adversários tão estabelecidos.

