A notícia de que quatro alunos de 12 anos planejaram envenenar professoras em Salvador é mais do que um caso policial; é um sinal de falência civilizatória na base da sociedade.
Não se trata de uma briga juvenil ou vandalismo; é a articulação de um homicídio, premeditado por crianças do Ensino Fundamental.
O motivo alegado é a linha mais chocante do boletim: o medo de serem reprovados e colocados em recuperação escolar.
O risco de uma nota baixa foi equiparado ao custo de uma vida humana. Essa equação macabra revela a desesperança tóxica que permeia a relação ensino-aprendizagem.
A escola, que deveria ser o porto seguro do desenvolvimento, transformou-se no palco de uma conspiração criminosa.
A tentativa, frustrada pela intervenção de um quinto aluno, expõe a frieza da logística do plano: chumbinho camuflado em doces.
O veneno, tristemente acessível no submundo do controle de pragas, virou a ferramenta para resolver um conflito pedagógico.
A admissão da armação pelos estudantes, ainda que neguem ter levado o veneno, é um alarme ensurdecedor.
O que levou esses pré-adolescentes a ver a morte como a solução derradeira para um problema curricular?
A resposta não está apenas na mente deles, mas na pressão social, na ausência de mecanismos de luto pela frustração e na espetacularização da violência como poder.
O áudio da professora, chocada, mas lúcida, resume o novo medo: “Não aceitem nada. Infelizmente, estamos vivendo assim.”
É a destruição do laço de confiança mais fundamental da escola. O educador, antes visto como mentor, passa a ser uma ameaça potencial.
O educador, obrigado a suspeitar do doce oferecido, perde a inocência e se arma de uma vigilância exaustiva e autodestrutiva.
O encaminhamento à Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Contra a Criança e ao Adolescente (Dercca) e à Delegacia para o Adolescente Infrator (DAI) é o caminho legal inevitável.
Mas a solução não é apenas policial. O afastamento temporário e o acompanhamento psicológico são paliativos urgentes.
O problema de fundo é sistêmico: como a escola se tornou um ambiente onde a performance acadêmica é percebida como uma ameaça existencial.
A pressão pela nota e a intolerância ao fracasso geram uma violência represada que, na ausência de maturidade emocional, se manifesta de forma radical.
A sociedade precisa encarar o que é o chumbinho da alma dessas crianças: a falta de repertório para lidar com a frustração. E a escola está falhando nisso.
O caso de Salvador é o espelho distorcido que mostra que, no limite, a ameaça mais letal pode vir do próprio banco escolar.

