O afastamento do prefeito Rodrigo Manga, de Sorocaba, por 180 dias, não é um evento isolado; é o teatro repetitivo da política municipal brasileira.
A Operação “Cópia e Cola”, que investiga irregularidades em contratos da Saúde, entrega o roteiro clássico: a presunção de desvio em áreas vitais.
A decisão judicial, determinada a pedido da Polícia Federal, é um reconhecimento cético de que o exercício do poder interfere diretamente na apuração dos fatos.
O afastamento, neste cenário, não é uma punição, mas um isolamento cirúrgico para proteger a integridade da prova.
É a suspensão temporária da imunidade tácita que o cargo confere, permitindo que a investigação respire sem a sombra do chefe do Executivo.
A reação de Manga nas redes sociais, classificando o ato como “tentativa de tirar do jogo quem ameaça outras candidaturas”, é a defesa padrão do político sob escrutínio.
Essa é a manobra de deslegitimar a Justiça, transformando uma medida cautelar em um complô eleitoral.
O ceticismo impõe: se o afastamento fosse puramente político, a Justiça Federal e a Polícia Federal estariam atuando como braços de campanha de adversários.
A tese do complô, na maioria das vezes, é a cortina de fumaça para desviar o foco da essência: as supostas irregularidades nos contratos de Saúde.
A Saúde municipal, com sua urgência e volume de recursos, tornou-se, ironicamente, o ambiente mais fértil para a corrupção de baixo risco no Brasil.
O que se investiga em Sorocaba é um sintoma do vício sistêmico em contratos emergenciais e licitações fragilizadas, onde o “copia e cola” não é de texto, mas de esquema.
Fernando Neto (PSD) assume a prefeitura, e a continuidade administrativa é, teoricamente, garantida.
Mas a troca de comando no meio de uma investigação de grande porte gera um vácuo de confiança e uma paralisia estratégica no governo local.
O eleitor exigente não pode se contentar com a narrativa simplista da “perseguição política”.
Deve-se perguntar: o que a Polícia Federal viu nos contratos da Saúde de Sorocaba que justificou uma ação tão drástica quanto a suspensão do mandato?
O caso Manga, como tantos outros, demonstra que o maior risco à democracia local não é a alternância, mas a impunidade silenciosa disfarçada de imunidade do cargo.
A Justiça, ao afastar o prefeito, lembra o público que o mandato é uma delegação de confiança, não uma blindagem contra a lei.
A Operação “Cópia e Cola” precisa ir além do afastamento: precisa destrinchar o algoritmo da fraude para que a saúde pública de Sorocaba não seja mais um contrato aberto à irresponsabilidade.

