Fundo proposto pelo Brasil para preservar florestas soma US$ 5,5 bilhões com adesão de Noruega, Indonésia e mais países

A proposta brasileira para a COP 30, o “Fundo Florestas Tropicais Para Sempre” (TFFF), é um salto conceitual ousado. Não se trata de caridade climática, mas de uma tentativa de reescrever a contabilidade da conservação.

O Brasil não pede doação; propõe um modelo de investimento que remunere o serviço ecossistêmico das florestas, transformando a preservação em um ativo de longo prazo.

O ceticismo, contudo, é obrigatório. O TFFF nasce com uma meta ambiciosa: alavancar um capital inicial de governos (cerca de US$ 25 bilhões) para gerar um fundo total de até US$ 125 bilhões, através de investimentos no mercado financeiro.

A ideia é que os retornos dos juros desse capital investido paguem anualmente os países que mantiverem suas florestas tropicais intactas.

É uma engenhosa tentativa de garantir fluxo permanente e previsível de recursos, superando o modelo volátil e politicamente frágil das doações pontuais.

No entanto, o sucesso desta arquitetura financeira reside na adesão volumosa dos países ricos e do setor privado.

As primeiras reações na Cúpula de Líderes são um misto de esperança e frustração.

O aporte inicial de US$ 1 bilhão do Brasil e o anúncio de US$ 3 bilhões da Noruega são significativos, mas contrastam com o aporte meramente simbólico de € 1 milhão de Portugal.

Há um temor diplomático nos bastidores: que o TFFF se torne um “Fundo de Foto”, onde países investem valores irrisórios apenas para garantir um lugar à mesa e um discurso de “país fundador”.

O TFFF exige que os países patrocinadores assumam o risco inicial – o chamado “capital júnior” – para atrair o “capital sênior” do mercado privado, que busca segurança.

Essa divisão de risco é inovadora, mas a lentidão dos países ricos em assumir essa responsabilidade demonstra uma relutância crônica em financiar a dívida histórica da conservação.

O cerne do debate é o valor intrínseco. O TFFF busca finalmente atribuir um preço ao hectare de floresta em pé que não seja o da madeira, do gado ou do minério.

Ele estabelece o princípio de que a floresta é um bem público global e deve ser remunerada como tal.

A iniciativa também tenta corrigir distorções anteriores, garantindo que pelo menos 20% dos fundos sejam destinados diretamente a povos indígenas e comunidades tradicionais, os verdadeiros guardiões da biodiversidade.

Mas a crítica é dual. Há quem defenda que a própria ideia de “floresta de contrato” é uma mercantilização perigosa da natureza.

E há o ceticismo de que o modelo, por mais sofisticado que seja, conseguirá competir em escala com o poder destrutivo da economia extrativista.

O desafio do Brasil na COP 30, portanto, não é apenas lançar o Fundo. É convencer o mundo financeiro e as potências globais de que o retorno socioambiental é mais sólido e duradouro do que a taxa de juros comum.

Caso contrário, o TFFF será lembrado como uma ideia genial que, na prática, sucumbiu à miopia financeira global.

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