ANSIOSOS? Adriana Esteves e Murilo Benício aceitaram o convite para reprisar os papéis de Carminha e Tufão na sequência de “Avenida Brasil”

Há fantasmas que a teledramaturgia simplesmente se recusa a exorcizar. E o maior deles, sem dúvida, é o espectro do sucesso retumbante.

A suposta encomenda da continuação de “Avenida Brasil”, com o retorno de Carminha e Tufão, não é um projeto criativo; é um atestado de pânico da indústria.

É a jogada de quem, diante do desempenho vacilante de novas produções, resolve saquear o próprio passado.

A meta anunciada é clara, e perigosa: “superar o impacto cultural” da primeira parte.

Mas o que a Globo realmente busca não é arte, e sim o índice de audiência cativo que parou o país em 2012.

O fenômeno “Avenida Brasil” foi um alinhamento cósmico de fatores irreplicáveis: um momento socioeconômico de ascensão da “nova classe C” e uma narrativa genial que a elevou ao posto de protagonista.

A vingança de Nina contra Carminha não era apenas uma disputa pessoal; era a metáfora visceral de um Brasil que tentava acertar as contas com a elite e a hipocrisia.

O retorno de Carminha (Adriana Esteves) e Tufão (Murilo Benício) é o ponto de partida mais seguro, mas também o mais arriscado.

O arco de redenção de Carminha, uma das viradas mais audaciosas da teledramaturgia, foi fechado. O que o autor João Emanuel Carneiro fará agora?

Recair no maniqueísmo simplório, tornando Carminha novamente uma vilã unidimensional, seria uma traição ao legado da personagem.

Por outro lado, mantê-la como uma ex-vilã regenerada pode esvaziar a faísca original da rivalidade que moveu a trama.

Tufão, o “ex-jogador burro-rico”, encerrava a ironia social de que o dinheiro e a ingenuidade coexistem no Brasil.

Qual é a nova contradição social que um Tufão envelhecido e um Divino gentrificado poderão representar?

A aposta da emissora em sequências, motivada pelo sucesso de derivados no horário das 18h, ignora a natureza distinta do horário nobre.

Novelas das nove exigem ineditismo e uma pauta que ressoe com o país naquele exato momento.

Avenida Brasil 2, prevista para 2027, corre o risco de ser apenas uma releitura nostálgica e tardia de um Brasil que não existe mais.

O público de 2027 é mais fragmentado, menos propenso à catarse coletiva de uma única novela.

A expectativa é uma armadilha. A primeira versão era sobre a surpresa do lixo ao luxo. A segunda será sobre a memória do que foi bom.

Se João Emanuel Carneiro não encontrar um novo “Oi, oi, oi” – ou seja, um novo código cultural – esta continuação será apenas um eco nostálgico.

Será a prova de que, na falta de inspiração para construir o futuro, a única alternativa restante é viver de royalties do passado. Um movimento cínico, ainda que comercialmente defensável.

O sucesso da primeira parte é a grande maldição da segunda. E a Globo está, conscientemente, entrando na boca desse dragão.

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