Poderia o ato de celebrar, um brinde descompromissado na balada, ser, na verdade, um sorteio macabro com a própria vida?
É a pergunta que a tragédia de Leonardo, e de tantos outros, impõe à nossa sociedade anestesiada.
Sua recuperação, um milagre tênue após 33 dias de internação, não apaga o custo: dez quilos a menos, debilitação física e, o mais cruel, a cegueira irreversível.
O metanol não é apenas um veneno; é um cavalo de Troia químico, incolor e inodoro, que mimetiza a embriaguez comum.
O álcool metílico se disfarça. Mas ao ser metabolizado pelo fígado, ele se converte em ácido fórmico, um ácido implacável.
Essa é a substância que, literalmente, queima o nervo óptico e destrói o tecido cerebral.
O prontuário de Leonardo é um roteiro do desastre. Visão turva, ataxia, náuseas e vômitos.
Sintomas que o público leigo, no calor do momento, confunde com uma ressaca brutal ou um exagero.
O diagnóstico de metanol é, em si, um atestado de falha sistêmica.
A suspeita médica surge quando os sinais neurológicos e visuais escalam de forma desproporcional ao álcool etílico ingerido.
A ressonância magnética, com suas lesões cerebrais compatíveis, selou o veredito.
Foi necessária a intubação e a hemodiálise, um esforço desesperado para filtrar o veneno do sangue.
Mas a toxicidade avançada já cobrava seu preço.
A piora hemodinâmica, a taquicardia: o coração de Leonardo lutava para bombear o sangue alterado.
Os médicos, então, induziram o coma. Uma pausa forçada contra um ataque químico que já era devastador.
A história de Leonardo não é um caso isolado de azar. É um sintoma de uma economia subterrânea e criminosa.
O metanol é um álcool industrial, drasticamente mais barato que o etanol de consumo.
Sua presença em destilados é a prova do crime: adulteração visando lucro máximo, a qualquer custo humano.
Estamos falando de uma falência tríplice: do controle sanitário, da fiscalização de bares e baladas e, crucialmente, da rastreabilidade da cadeia de bebidas.
Como uma substância industrial altamente tóxica migra com tanta facilidade para a prateleira de um bar?
O crime organizado enxerga na sede de consumo e na busca por preço baixo a brecha perfeita.
O antídoto, o fomepizol, é de difícil acesso no país, uma ironia cruel que ilustra a despriorização do risco.
Nosso ceticismo deve ir além da máfia dos destilados. Devemos questionar o sistema que permite que isso se repita.
A comemoração de Leonardo, por conseguir sentar na cama, é tocante. É a vitória íntima sobre o flagelo químico.
Mas a sociedade continua de olhos vendados. O ‘e daí?’ dessa tragédia é a permanência do risco.
Até que ponto o leitor, o consumidor, está disposto a trocar a segurança pela economia de poucos reais?
O metanol é o espelho de uma vulnerabilidade que não deveria existir na vida noturna urbana.
A cegueira de Leonardo, e as vidas ceifadas, são o custo invisível de um sistema que falhou em proteger o cidadão de um veneno óbvio, escondido na garrafa errada.
A única certeza que fica é que, na próxima balada, o perigo estará lá, à espreita, disfarçado de etanol, esperando o brinde do desavisado. E isso é inaceitável.

