Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revela que estudantes que ingressam em cursos superiores por meio de cotas (destinadas a pretos, pardos e indígenas, no âmbito da política de ação afirmativa) enfrentam dificuldades para alcançar desempenho equivalente ao dos alunos admitidos pela ampla concorrência ou apenas por escola pública.
A investigação abrangeu 14.500 estudantes matriculados nos cursos de Física, Biologia e Pedagogia entre 2013 e julho de 2025. Os pesquisadores compararam três perfis de ingresso: alunos da ampla concorrência, alunos de escola pública (sem uso das cotas raciais) e alunos cotistas de pretos, pardos ou indígenas.
Os dados indicam uma hierarquia persistente no desempenho acadêmico: estudantes de ampla concorrência, em geral, obtêm melhores resultados; os de escola pública, em média, ficam em posição intermediária; e os cotistas apresentam, em média, os piores resultados. Tal padrão mantém-se ao longo do curso, segundo o levantamento.
Entre os pontos analisados, observou-se que em disciplinas de alta exigência, como Cálculo I (muito presente em cursos de exatas), essa ordem de rendimento se acentua. Para cursos menos exigentes ou com alta taxa de aprovação — como Pedagogia — as diferenças aparentam ser menores ou menos evidentes.
Outro dado relevante é que o recurso de reprovar ou refazer uma disciplina não se mostrou eficaz para equalizar o desempenho dos estudantes cotistas. Na verdade, quanto mais vezes a disciplina foi refeita, menor a chance de aprovação subsequente para esse grupo, segundo os autores.
Para um dos autores, o professor livre-docente da Unesp Marcelo Yamashita, “a utilização de cotas deveria ser seriamente rediscutida”, uma vez que “os dados mostram que não existe um ganho de qualidade considerável nos estudantes que entram com as menores notas no vestibular”.
Esse resultado contraria uma das justificativas mais frequentes para a adoção das cotas, a de que, uma vez dentro da universidade, os cotistas teriam condições de recuperar eventuais defasagens e alcançar rendimento equivalente aos demais. No entanto, o estudo sugere que essa recuperação não está ocorrendo de forma robusta.
Vale destacar que os autores alertam para o papel dos cursos com menor exigência de aprovação como possíveis fatores de mascaramento das diferenças. Em cursos com taxas elevadas de aprovação, as lacunas entre os grupos podem não se manifestar de modo tão visível.
O estudo sugere ainda que políticas de ingresso afirmativo necessitam de contrapartidas estruturais para promover a permanência, o sucesso acadêmico e eventual equiparação de rendimento. Sem esse suporte, a simples reserva de vagas parece insuficiente para garantir igualdade real no desempenho.
Do ponto de vista institucional, tais achados podem levar a reflexões sobre como as universidades estruturam o acompanhamento pedagógico, a oferta de disciplinas e o suporte aos estudantes que apresentam maior vulnerabilidade educacional de origem. A Unesp, por exemplo, pode avaliar se suas políticas de apoio aos cotistas são suficientes para produzir resultados mais equânimes ao longo da graduação.
Adicionalmente, a questão tem desdobramentos na própria imagem das instituições e no valor atribuído aos diplomas. Se alunos que ingressam por diferentes vias têm desempenhos significativamente distintos, pode haver implicações para a percepção do mercado e da própria comunidade acadêmica.
Entretanto, há que se considerar que este estudo focalizou especificamente cursos de Ciências Exatas e Biológicas, que por sua natureza são mais exigentes, e não abrangeu todos os cursos da instituição. Portanto, generalizações para outras áreas devem se dar com cautela.
Também é pertinente observar que o desempenho acadêmico não é função apenas do ingresso, mas de fatores como suporte financeiro, condições de estudo, rede de mediação pedagógica e envolvimento institucional do aluno. Muitos estudantes cotistas acumulam desafios relacionados à origem socioeconômica, que repercutem no rendimento.
Além disso, a discussão sobre as cotas envolve questões amplas de justiça social, acesso à educação e reparação histórica. O estudo provoca um debate sobre até que ponto essas políticas cumpriram ou cumprem seus objetivos iniciais e o que poderia ser ajustado para que o acesso se traduza também em desempenho e conclusão equivalentes.
Para poderes públicos e gestores de ensino superior, os resultados indicam que as cotas, sozinhas, talvez não estejam suficientes para garantir a equiparação de resultados acadêmicos. Estratégias complementares, como reforço pedagógico, mentorias, atendimento psicológico e ampliação de tempo de permanência, podem tornar-se necessárias.
Em termos de SEO, este tema é relevante para quem acompanha políticas de educação, igualdade de acesso e rendimento universitário no Brasil. A reportagem fornece dados recentes e instiga reflexão sobre eficiência e efeitos reais das cotas no ensino superior.
Ainda que o estudo da Unesp não aborde explicitamente as taxas de evasão ou conclusão diferenciadas entre cotistas e não cotistas em todos os cursos, outros levantamentos indicam que essas variáveis também variam conforme curso, instituição e método.
Por fim, fica a questão: se a meta é que estudantes de cotas não apenas ingressem, mas também concluam e obtenham rendimentos equiparáveis aos demais, então é imprescindível que o sistema de ensino superior se estruture não apenas para acolher, mas para formar com equidade. O acesso é o primeiro passo, mas o sucesso acadêmico — e sua manutenção ao longo do curso — requer suporte contínuo e políticas integradas.
A reflexão lançada pelo estudo da Unesp, portanto, é dupla: por um lado, reafirma a importância das políticas afirmativas para o acesso; por outro, evidencia que o desafio vai além da entrada e incide de forma permanente ao longo da trajetória acadêmica. O debate sobre cotas, acesso, rendimento e permanência segue atual e exige acompanhamento atento.

