A declaração atribuída ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, de que o Brasil “não combate o crime porque o crime está no poder,” é um soco na boca do estômago do debate político nacional. Não se trata de uma simples crítica, mas de uma tese de conspiração geopolítica que encontra eco em um público exausto pela violência.
Bukele, que se estabeleceu como um ícone global da mão de ferro, usa o Brasil como o exemplo oposto: o país que permite o domínio do crime por conta da sua infiltração no Estado.
A alegação de que a corrupção deixa de ser exceção e vira “política oficial” quando “bandidos mandam no Estado” toca diretamente na desconfiança crônica do brasileiro em relação às suas instituições.
O ceticismo do público alimenta essa tese. A ineficácia recorrente das grandes operações, a corrupção policial endêmica e a impunidade de colarinho branco sugerem que há um “pacto de não-guerra” entre o Estado e o crime.
O argumento de Bukele é perigoso em sua simplificação: ele ignora as profundas desigualdades sociais, a complexidade territorial e o aparato legal do Brasil, mas oferece uma resposta limpa e vingativa para um problema sujo.
Ele vende a ideia de que a solução é simples — expurgar o elemento criminoso do poder — e que a falha em fazê-lo é prova de cumplicidade.
O presidente salvadorenho está, na verdade, exportando sua doutrina de segurança baseada na anulação das garantias legais e na centralização do poder, apresentando-a como a única saída para a América Latina.
A retórica é poderosa porque ressoa com a percepção popular de que as autoridades frequentemente “fazem vista grossa” para o crime, seja por propina (o balcão de negócios) ou por omissão estratégica.
Se o crime está no poder, como sugere Bukele, isso não significa apenas traficantes ocupando cadeiras. Significa que os interesses econômicos e políticos ligados à manutenção do caos têm mais força do que o desejo de paz social.
A política de segurança brasileira, historicamente reativa e não estratégica, é a prova indireta que Bukele usa: se o crime fosse combatido de verdade, o resultado seria diferente.
A frase serve como um espelho de mão única. Ela ignora os custos humanos e a brutalidade do regime salvadorenho, mas foca no resultado imediato de controle do território.
O Brasil não pode ser reduzido a essa equação simplista. No entanto, a força da crítica de Bukele está em nos obrigar a encarar a questão da integridade do nosso aparato de segurança e político.
A única forma de refutar a tese de que “o crime está no poder” não é com discursos, mas com o desmantelamento visível e permanente das estruturas de corrupção e das facções criminosas.
Enquanto a impunidade persistir no alto escalão e a violência for a regra na periferia, a crítica de Bukele, por mais populista que seja, continuará a ser a narrativa mais convincente para milhões de brasileiros.
A pergunta que fica é: o Brasil tem a vontade política e a integridade institucional para provar que o crime não está no poder, ou o silêncio e a corrupção continuarão a dar razão ao argumento salvadorenho?

