O desabafo de Luciano Huck sobre a megaoperação no Rio, que resultou em 120 mortes, e seu apelo por “oportunidades e caminhos” para mudar a violência, é um momento de catarse pública, mas que precisa ser analisado com profundo ceticismo.
A voz de um apresentador de alcance nacional, no horário nobre, tem o mérito inegável de tirar a tragédia da invisibilidade e forçar a elite a ouvir o lamento da periferia.
Huck está fundamentalmente correto: a violência endêmica é, na sua raiz, um problema de ausência de Estado e de desigualdade estrutural. Não há solução de longo prazo que não passe pela educação e pela economia.
Contudo, a crítica — “é preciso dar oportunidades” — é um lugar-comum sofisticado. É uma verdade tão inquestionável que, por si só, se torna inócua para resolver a crise imediata.
O problema de fundo é que o discurso das “oportunidades” ignora a urgência da guerra urbana que está em curso.
Não se trata apenas de um jovem sem emprego; trata-se de um adolescente que já foi recrutado, armado e doutrinado por uma facção que hoje opera com logística e armamento de guerra.
Neste cenário, a “oportunidade” de um emprego formal compete com a ilusão do poder imediato e do ganho rápido que o tráfico oferece, uma batalha que a carteira assinada dificilmente vence.
O apelo de Huck é a solução social para o problema. Mas a megaoperação e as 120 mortes são o sintoma de um problema policial e militar que exige uma resposta tática no presente.
A crítica do apresentador é válida, mas peca por ser unilateral. Ela foca na causa (falta de oportunidade), mas não oferece um caminho para desmantelar a máquina criminosa que opera agora.
O Comando Vermelho não espera a próxima política social; ele usa a ausência do Estado para recrutar e tiranizar.
É imperativo questionar: a quem o Estado deve dar oportunidades – ao jovem que tenta a vida honesta ou ao jovem que já pegou o fuzil e se tornou parte da estrutura armada?
A solução não é ou social ou policial; ela é necessariamente integrada.
O discurso da oportunidade serve como um conforto moral para o público que assiste à tragédia de longe, permitindo que a responsabilidade seja terceirizada para uma política pública ideal.
Concordamos com a premissa de Huck: o único caminho sustentável é a inclusão. Mas discordamos da insuficiência do discurso.
A urgência é interromper o ciclo de recrutamento e letalidade, enquanto se constrói o caminho das oportunidades.
O Brasil precisa parar de debater se a solução é dar emprego ou prender e começar a implementar um plano que combina o rigor da lei no presente com a esperança da economia no futuro.
A voz de Huck, por mais bem-intencionada, é apenas o trailer de uma discussão que precisa de menos palco e mais plano de ação imediato.

