O número é contraintuitivo e assombra o debate público: 87,6% dos moradores de comunidades afetadas no Rio de Janeiro aprovam uma megaoperação policial que culminou em mais de uma centena de mortes.
O consenso estabelecido, pautado pela ótica dos direitos humanos universais, vê na ação policial apenas a violência vertical, a brutalidade estatal.
A pesquisa AtlasIntel, no entanto, obriga-nos a inverter a lente e olhar para o que o asfalto habitualmente ignora: a violência horizontal.
O alto índice de apoio não é um endosso irrestrito ao método do Estado. É, na verdade, uma medida eloquente da insuportável tirania do para-Estado do tráfico.
A favela não vive sob um vácuo de poder, mas sob a ditadura da facção criminosa, que regula o comércio, impõe códigos morais e exerce o monopólio da violência cotidiana.
O morador está preso entre duas forças destrutivas: a letalidade esporádica da polícia e a opressão permanente do crime organizado.
Para quem vive sob essa bota, a operação, por mais sangrenta que seja, é vista como um rompimento temporário da rotina de subjugação.
A aprovação de 87,6% é um grito, uma súplica cifrada por libertação, confundida pela métrica social com um cheque em branco à ação militar.
A diferença é gritante quando comparada aos 55% de apoio entre os demais cariocas.
Para o asfalto, o tema é ético e de segurança pública. Para o morro, é de sobrevivência e de resgate de uma cidadania roubada.
O habitante da favela não está debatendo a legalidade abstrata do confronto, mas o preço da vida sem o medo constante da vigilância e das “justiças” impostas pelo tráfico.
Qual é, então, o verdadeiro custo dessa aprovação?
É a resignação diante da incapacidade do Estado de oferecer segurança permanente, integrada e não-letal.
O governo interpreta o 87,6% como a validação da exceção: a incursão militar espetacular, violenta e não sustentável.
A sociedade, por sua vez, aceita o preço da tragédia como inevitável para que a facção seja momentaneamente desorganizada.
Essa dinâmica perpetua o ciclo: o crime volta, mais forte e vingativo, após a retirada, e o morador aguarda, desesperado, a próxima operação “libertadora”.
O índice recorde é o reflexo de um contrato social falido. É o atestado de que a vida sob o domínio criminoso é tão degradante que qualquer ruptura violenta é momentaneamente preferível ao status quo.
O escândalo não reside na porcentagem de apoio, mas na profundidade da desesperança que essa aprovação mascara.
A sociedade deve parar de debater se a polícia deve subir o morro e começar a questionar por que o morador precisa clamar por uma guerra para se sentir temporariamente livre.
O 87,6% é o código de um sofrimento que a retórica humanitária, vista do conforto da zona sul, jamais conseguirá decifrar em sua plenitude.
É a prova de que a única paz que a favela conhece é a interrupção momentânea da tirania que o Estado falhou em erradicar pela via da presença e da lei.
A cifra é um espelho. E o que ela reflete é a face mais trágica da ausência do Estado de Direito.

