A promessa de abandonar a tradicional Colonoscopia em favor de um simples teste de fezes para detecção de câncer de cólon está enfim ganhando forma como alternativa viável. Pesquisas recentes apontam que o denominado teste de DNA fecal multiponto, também chamado de “multi-target stool DNA” (mt-sDNA), alcançou uma sensibilidade superior a 90 % para detectar câncer colorretal em estágios iniciais. Esse avanço abre caminho para que clínicos e pacientes analisem com mais atenção a viabilidade da substituição ou complemento do exame invasivo tradicional.
O conceito central consiste em coletar amostra de fezes em ambiente domiciliar e analisar não só vestígios de sangue oculto, mas também alterações genéticas e metabólicas específicas associadas ao câncer de cólon. Por exemplo, em estudo com mais de 20 mil indivíduos submetidos a colonoscopia e ao teste mt-sDNA, foi identificado que a sensibilidade para câncer estava em 92,7% entre os estágios I a III. A especificidade para resultados negativos também se mostrou elevada, na casa de 90% ou mais em algumas análises.
Mesmo assim, especialistas alertam: o exame de fezes não substitui totalmente a colonoscopia. Em primeiro lugar, apesar da alta sensibilidade para câncer estabelecido, a capacidade de detecção de lesões pré-cancerosas — como grandes adenomas ou pólipos de alto risco — ainda é bem inferior à da colonoscopia. Estudo indicou apenas cerca de 43% de sensibilidade para estas lesões avançadas. Em segundo lugar, um resultado positivo no teste de fezes geralmente exige confirmação por colonoscopia para diagnóstico definitivo e eventual remoção de lesão.
Para os pacientes, a vantagem é evidente: o teste é não-invasivo, não exige preparo intestinal rigoroso, sedação nem internação. Conforme relatório da Harvard Health, “uma colonoscopia é o padrão-ouro, mas o teste de DNA fecal é mais simples e tem boa precisão”.Em populações que têm receio da colonoscopia ou enfrentam barreiras de acesso, essa ferramenta pode ampliar a adesão ao rastreio e, assim, salvar vidas.
Do ponto de vista técnico, o teste de DNA fecal avalia tanto indicadores de sangue oculto na fezes quanto mutações, metilações ou fragmentos de DNA de células neoplásicas que se desprendem das lesões. Por exemplo, estudo realizado na Tailândia constatou sensibilidade de 91,5% para câncer e 75% para neoplasias avançadas em coorte local. A especificidade, ou seja, a proporção de resultados verdadeiramente negativos, também se manteve alta — 90% ou mais em diversos estudos.
Apesar disso, não se trata de “adeus colonoscopia”. A colonoscopia continua sendo o método mais completo: permite visualização direta, biópsia e remoção imediata das lesões. Conforme a American College of Surgeons, a sensibilidade da colonoscopia para câncer pode chegar a 95% ou mais, enquanto o teste de DNA fecal, embora excelente, ainda apresenta limitações para pólipos. Portanto, o teste de fezes surge como alternativa ou complemento, não como substituto absoluto.
A recomendação corrente é que pessoas em risco médio, sem sintomas e com mais de determinada idade (por exemplo 45 anos) considerem opções menos invasivas para rastreio, inclusive o teste de fezes. Porém, indivíduos com histórico familiar de câncer colorretal ou elevado risco devem continuar a realizar colonoscopia conforme orientação médica. A adesão aos exames de rastreio ainda é baixa em muitos países, o que limita o impacto dos avanços tecnológicos.
Outro ponto importante refere-se ao custo e logística. Apesar de mais simples do que a colonoscopia, o teste de DNA fecal requer envio e processamento laboratorial especializado. Os custos variam conforme o país e sistema de saúde. Em contrapartida, ao ampliar o acesso ao rastreio, pode-se reduzir custos associados ao tratamento de estágios avançados de câncer, bem como complicações — o que representa benefício à saúde pública de larga escala.
Além disso, a interpretação precisa desses testes exige acompanhamento clínico. Um resultado negativo no teste de fezes não elimina completamente o risco de câncer ou pólipos. Do mesmo modo, um resultado positivo exige investigação de confirmação para evitar ansiedade desnecessária ou intervenções prematuras. Especialistas destacam que o paciente deve compreender bem as limitações e o significado do exame antes de optar pelo uso.
O cenário regulatório também avança. Nos Estados Unidos, por exemplo, foram aprovados testes alternativos de sangue para rastreio colorretal. A exemplo, o teste Shield detectou 83% dos cânceres em estudo clínico, embora ainda com limitação para pólipos pré-cancerosos — o que reforça que mesmo novas tecnologias exigem confirmação com métodos tradicionais. Isso demonstra que o ecossistema de rastreio se expande, mas é preciso cautela na adoção.
Do ponto de vista de política de saúde e vigilância populacional, o uso desses testes de fezes pode revolucionar estratégias de rastreio em larga escala. Como o exame é menos invasivo e mais aceitável para muitos, há potencial para elevar a cobertura de triagem em comunidades onde a colonoscopia encontra barreiras logísticas, culturais ou econômicas. A consequência esperada é a detecção precoce de cânceres, com maior chance de cura e menor impacto para o sistema de saúde.
Ao mesmo tempo, é necessária educação para que o público compreenda que “teste mais simples” não significa “risco inexistente”. O rastreio contínuo, seja anual ou conforme indicação, permanece fundamental. Conforme estudo da U.S. Preventive Services Task Force, “entre os testes com fezes, aqueles feitos anualmente oferecem maior ganho em vida útil do que exames esporádicos”.
Para os clínicos, a incorporação desse tipo de exame à prática exige protocolos. Os médicos devem avaliar o perfil de risco individual, discutir opções com o paciente, apresentar limitações e benefícios, e garantir o seguimento apropriado para quem optar pelo teste de fezes. Um bom rastreio não se resume ao exame, mas ao acompanhamento e aos próximos passos em caso de resultado alterado.
Em resumo, o avanço dos testes de DNA fecal representa um marco importante no rastreio do câncer de cólon. Ele oferece alternativa menos invasiva e mais acessível que a colonoscopia para muitos pacientes, com precisão elevada para câncer estabelecido, embora ainda com limitações para pólipos e lesões precoces. A colonoscopia continua indispensável em contextos de alto risco e para confirmação de achados.
Em termos de cobertura em países como o Brasil, onde o acesso à colonoscopia plena pode ser desigual, o uso do teste de fezes pode se tornar ferramenta estratégica para ampliar o rastreio. No entanto, haverá necessidade de adaptação de protocolos, infraestrutura e cobertura de exames laboratoriais, além de campanhas informativas para a população.
Por fim, a migração para um cenário em que “adeus colonoscopia” seja realmente possível dependerá de mais pesquisas, validações locais, adaptações regulatórias e, especialmente, de adesão da população. Até lá, o que se recomenda é uma abordagem integrada: utilizar o teste de fezes como porta de entrada ou triagem, sem abdicar da colonoscopia quando indicada. O importante é que o rastreio ocorra — e que ocorra cedo.
Esse cenário marca uma virada. Como resumiu um especialista: “não se trata de eliminar a colonoscopia hoje, mas de dar ao paciente mais caminhos de rastreio — o simples teste de fezes pode ser começado em casa, com envio ao laboratório, e se der positivo, vai para a colonoscopia”. Esse modelo “teste simples primeiro, colonoscopia se necessário” pode ampliar dramaticamente a detecção precoce e, com isso, reduzir a mortalidade por câncer de cólon.

