Nikolas Ferreira chama operação no Rio de “Maior faxina da história” após 60 m*rtes

A declaração de Nikolas Ferreira de que a megaoperação no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão representaria “a maior faxina da história do Rio de Janeiro” — após mais de sessenta mortes — não é apenas impactante: é sintomática.

Quando um parlamentar eleva o número de mortos como troféu, cabe perguntar: o que está sendo realmente comemorado?

Há, primeiro, uma linguagem que privatiza o espaço público da lei — “faxina” sugere limpeza, supressão de sujeira. Mas quem define o que é “sujeira”? Quem paga pela “faxina”? A metáfora desloca o debate para um campo moral, quase simbólico, e escapa do terreno dos direitos humanos.

O governo do estado havia divulgado a cifra de sessenta supostos “criminosos” mortos na operação, mais quatro policiais. A declaração de Ferreira retoma esse número com entusiasmo. Mas não questiona — pelo menos não publicamente — o grau de certeza sobre quem exatamente caiu, sob quais circunstâncias e se a letalidade seguiu estritamente o princípio de legalidade.

Na sequência de seu discurso, o deputado atribui à “esquerda” a condição simbólica de lamentar a morte de criminosos enquanto ignora as vítimas reais — “um pai de família com duas crianças é assassinado” — e contrapõe esse quadro à sua celebração do abatimento de “60 eleitores”.

Há uma inversão ideológica digna de estudo: o Estado ou seus representantes se vestem de justiceiros em série, o crime vira maleza e o confronto se torna espetáculo. Mas nenhuma das partes da equação — vítimas civis, investigação independente, transparência — aparece com o mesmo protagonismo.

Esse tipo de discurso tem implicações práticas: legitima operações com controle limitado, reduz o protagonismo das instâncias de proteção de direitos e utiliza a credibilidade pública para infundir uma narrativa de “guerra justa”. Mas a guerra, sabemos, cobra mais do que parece à primeira vista.

Quando a morte em massa é tratada como “saldo positivo”, duas coisas acontecem: a banalização da perda humana e a obstrução da exigência por responsabilização. Quem questiona vira “aliado da esquerda” ou “protetor do crime”. E o debate público se transforma em culto à produtividade letal.

Não se trata apenas de “tirar do pé” do tráfico — o que por si só pode ser legítimo — mas de como esse processo se operacionaliza: sob que mando, com que supervisão, com que transparência e com que impacto sobre moradores e comunidades historicamente vulneráveis.

A metáfora da faxina oculta um detalhe crucial: limpeza pressupõe sujeira, e sujeira, por definição, não é humana. Esse tipo de gramática criminaliza territórios inteiros. E a “faxina” abre espaço para que a exceção vire regra.

Se o discurso se normaliza, o próximo passo — silencioso — é reduzir o limiar de investigação, minimizar o dolo e transformar corpos em estatísticas. O “e daí?” é claro: cada vez menos se exigirá resposta do Estado, cada vez menos se cobrará justiça.

No fundo, a pergunta que fica — e que o senador civilizado deveria fazer — é: queremos construir ordem sobre corpos ou sobre instituições? Queremos que a lei mate ou que a lei garanta?

Porque, quando as balas ecoam nas comunidades e se transformam em cifras celebradas no plenário, o risco que corre o Estado democrático não é apenas o de excesso de poder — é o de perder seu propósito.

E se quisermos que a história julgue esse momento, não será pelo tamanho da “faxina” que ele será lembrado, mas pelo vazio que deixou.

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