O apresentador Ratinho — nome artístico de Carlos Roberto Massa — tornou-se algo mais do que um rostinho conhecido da televisão.
Recentemente, ele revelou publicamente que detém cerca de 77 emissoras de rádio e 6 emissoras de televisão por meio de seu grupo Rede Massa e afiliadas.
Além disso, também atua no agronegócio — possui fazendas — e em hotelaria, que ele indica como “sua principal fonte de renda”.
Essa transformação, de comunicador a empresário de mídia e agronegócio, merece reflexão.
Porque não se trata apenas de “celebridade que enriquece”. É sobre quem controla o canal de comunicação, quem dita pauta, quem decide o que chega aos ouvidos de milhões.
A gênese do império
Ratinho fala de origem humilde: vendia mamona, engraxava sapatos, desde menino gostava de “vender algo”.
Esse traço – o de vendedor nato – transparece em sua trajetória: ele não se limitou ao palco, atuou por trás dos panos.
O que nos leva à primeira pergunta crítica: quando o comunicador vira o dono da máquina, até que ponto o discurso permanece independente?
Poder e concentração de mídia
Ter dezenas de emissoras — “77 rádios” segundo as próprias palavras — implica uma presença massiva no que se ouve Brasil afora.
Essa escala de atuação coloca Ratinho e seu grupo entre os grandes players da mídia brasileira.
E é justamente aí que reside o fio mais tênue da análise: concentração vs pluralidade.
Em democracias saudáveis, diversidade de vozes é tão importante quanto liberdade de expressão. Quando um agente detém muitos canais, o risco de uniformização da mensagem aumenta — mesmo que não haja cisão visível.
O discurso “gosto de ganhar dinheiro”
Ratinho não esconde: “gosto de ganhar dinheiro”.
E faz questão de dizer que “a pior coisa do mundo é ser empresário”, ao mesmo tempo em que mantém dezenas de negócios.
Esse paradoxo é revelador: reconhece o esforço, mas também evidencia a ambição — legítima, claro — de dominar um setor.
E a mídia é um setor estratégico: mais que entreter, forma opinião.
Impactos sociais e éticos
O domínio midiático suscita várias interrogações:
Como isso afeta a pluralidade de ideias em regiões onde suas rádios atuam?
Qual é o perfil de sindicância ou regulação sobre tais redes?
Quando o apresentador se torna magnata, onde termina o entretenimento e começa o lobby ou influência política indireta?
Não se trata de acusado automático de manipulação. Mas de reconhecer que há uma assimetria de poder que vai além do microfone.
O agronegócio e a mídia: uma aliança
Ratinho não parou nas transmissões. Ele tem fazendas — nove ou mais, conforme entrevistas.
Isso insere-o na tríade: comunicação + terra + capital.
Em alguns contextos, mídia rural tem voz estratégica no campo político-econômico — seja para pautas ambientais, seja para reforma agrária. Ter veículos que ecoam também esse universo não é neutro.
Conclusão
Ratinho não é mais apenas o “velha guarda” da TV aberta que via o público gritar “o Ratinho, o Ratinho!”.
Ele se consolida como um agente estrutural — proprietário, controlador, influente — num setor que define não só o que se ouve, mas frequentemente o que se acredita.
E o que isso nos faz perguntar?
Se o dono do microfone é o mesmo que tem fazendas, rádios e hotéis, como fica a noção de imprensa livre e independente?
Se a “voz” de um comunicador passa a ser a voz de um império, onde param as vozes minoritárias?
O Brasil que se informa, decide e se mobiliza merece saber: quem segura o dial, segura parte do poder. E Ratinho está claramente naquele assento.
Fica o convite: ouvir menos o apresentador e prestar mais atenção ao poder por trás dele.

