A dor, dizem, é uma linguagem que todos entendem — mas poucos transformam em propósito. A professora Suélia Rodrigues, da Universidade de Brasília (UnB), decidiu traduzi-la em ciência.
Seu ponto de partida não foi um laboratório, e sim o quarto do pai, onde as feridas abertas pela diabetes se tornaram o retrato silencioso de uma luta desigual.
“Ver meu pai sofrer com feridas que não cicatrizavam me fez perceber que era possível unir ciência e empatia”, contou. Dessa combinação nasceu o Rapha, um aparelho que promete acelerar a cicatrização e evitar amputações — um dos desfechos mais devastadores do chamado pé diabético.
Foram quase vinte anos de pesquisa, testes e aperfeiçoamentos. O nome, inspirado na palavra hebraica rapha — “aquele que cura” —, carrega o simbolismo daquilo que o projeto representa: a cura que nasce do amor.
O dispositivo funciona estimulando os tecidos a se regenerarem de forma mais rápida, reduzindo infecções e encurtando o tempo de cicatrização. Simples em conceito, mas revolucionário em impacto.
No Brasil, estima-se que mais de 2 milhões de pessoas convivam com feridas crônicas relacionadas à diabetes. Em muitos casos, o tratamento é doloroso, demorado e termina em amputação.
A invenção de Suélia pode mudar esse cenário. Se aprovado pela Anvisa, o equipamento será produzido em larga escala e integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS), levando tecnologia de ponta a quem mais precisa — sem distinção de renda.
Mas o verdadeiro significado do Rapha vai além da medicina. Ele é um lembrete poderoso de que a ciência não é fria — ela nasce de afetos, de perdas e da urgência de transformar sofrimento em solução.
Num país onde a pesquisa muitas vezes sobrevive à base de resiliência e improviso, a história de Suélia é também um manifesto.
Mostra que inovação não depende apenas de recursos, mas de sensibilidade e obstinação. Que a cura pode começar no olhar de uma filha diante da dor do pai.
O que o Rapha representa é um futuro onde a tecnologia não substitui o humano, mas o amplia.
Porque, no fim, o que cura não é só a máquina — é o amor que a fez existir.
E talvez essa seja a mais revolucionária das descobertas: que toda ciência verdadeiramente transformadora nasce do desejo de aliviar a dor de alguém.

