Quinze milhões de dólares na conta. Cem mil por mês. E um contrato de silêncio que proíbe até a palavra “pai”. Parece ficção científica, mas é apenas mais um capítulo da biotecnologia moral que Elon Musk vem escrevendo — com corpos e consciências humanas como matéria-prima.
A proposta, revelada por uma blogueira que recusou o acordo, expôs algo mais profundo do que curiosidade sobre a intimidade de um bilionário: a fronteira cada vez mais turva entre progresso e poder.
Musk, que se autoproclama defensor da “continuidade da espécie humana”, já tem onze filhos conhecidos. Mas agora, o projeto parece ganhar contornos empresariais — com contratos, valores e cláusulas de sigilo. Uma reprodução administrada como startup.
O argumento é sempre o mesmo: garantir o futuro da humanidade diante do suposto “colapso da natalidade”. Uma narrativa sedutora, mas que esconde um subtexto inquietante — quem decide quais humanos merecem continuar?
Em tempos em que a fertilidade é tratada como commodity e o DNA como investimento, a paternidade deixa de ser um vínculo afetivo e passa a ser uma equação biológica com retorno garantido.
Há, claro, quem veja nisso apenas mais um sintoma da liberdade moderna. Adultos fazendo acordos entre adultos. Mas o que acontece quando o livre-arbítrio é moldado pelo tamanho da proposta?
A blogueira que recusou a oferta não apenas recusou o dinheiro — recusou a lógica. Em um mundo em que tudo tem preço, ela escolheu ter um valor.
A internet, previsivelmente, reagiu com polarização: “se fosse comigo, aceitaria na hora”, disseram alguns; “isso é tráfico de esperma de luxo”, responderam outros.
Mas a questão que o episódio levanta é mais densa: o que significa gerar uma vida em um contexto onde até o silêncio é remunerado?
O acordo de sigilo, nesse caso, é mais que uma cláusula jurídica. É uma metáfora do tempo em que vivemos — o da paternidade invisível, da intimidade terceirizada e da moral subcontratada.
Há um paradoxo fascinante aqui. Enquanto Musk sonha em povoar Marte, na Terra ele reduz o ato de criar um ser humano a um modelo de negócios. O gênio visionário e o capitalista sem freios convivem no mesmo homem.
A proposta, afinal, é um espelho. Ela revela o quanto a nossa noção de afeto, família e propósito foi sequestrada por métricas de eficiência.
No passado, o amor movia o nascimento. Agora, é o capital.
Alguns dirão que Musk apenas acelera o inevitável: a industrialização da vida. Outros verão um alerta sobre o que acontece quando o futuro é desenhado por quem pode comprá-lo.
No fim, o episódio não é sobre um bilionário e suas excentricidades. É sobre todos nós — e sobre o preço que estamos dispostos a aceitar para vender o direito de sermos humanos.
A pergunta final, então, não é “você toparia?”. É: em que momento começamos a achar normal colocar preço no milagre da existência?

