A morte inesperada de Paula Proença Castela Ribeiro — advogada de 35 anos, prima da cantora Ana Castela — provoca mais que lamento: ela coloca em cheque o que entendemos por cuidado, perda e redenção.
Em Cuiabá (MT), no dia 23 de outubro de 2025, Paula não resistiu a complicações decorrentes da gravidez e do pós-parto.
Um bebê nasceu prematuro, segue internado em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal — e, por ora, vive no limiar da esperança.
Paula vivia em Cáceres, Mato Grosso. Era evangélica, congregada na Igreja Assembleia de Deus Nova Aliança, e atuava também como advogada local.
A morte dela, num momento de expectativa de vida — gravidez, nascimento — torna o fato ainda mais agudo: era promessa, não fim.
E o contraste entre o morrer da mãe e o nascer do bebê amplia a tensão entre memória e futuro.
A comunidade reagiu: a OAB-MT emitiu nota de pesar, a igreja se uniu em oração, e a própria Ana Castela fez apelo por doações de sangue em nome da prima, na rede social.
Esse entrelaçar de fé, mobilização comunitária e tecnologia de cuidados modernos reflete as várias camadas da tragédia.
Mas o que esse caso revela além da dor individual?
Primeiro: a fragilidade do pós-parto, ainda em pleno século XXI, mesmo para mulheres com acesso razoável a serviços — Paula era profissional, aparentemente com condições de suporte.
Segundo: o paradoxo da maternidade como símbolo de vida plena e vulnerabilidade extrema. Nas suas veias estava a promessa de continuidade — e, ainda assim, o risco de descontinuidade.
Terceiro: a rede de sociabilidades que se forma em torno de uma perda — igreja, família, advogados, fãs, doadores. A morte vira, também, momento coletivo, de visibilidade e de mobilização.
Quarto: a vida do recém-nascido, prematuro, em UTI, torna visível o limbo entre o que se espera e o que se concretiza — entre o “vir a ser” e o “já não mais”.
Paula deixa esposo, filha e um bebê recém-nascido. A ausência dela será presença constante — em fórmulas, em fraldas, em memórias da filha. E o recém-nascido viverá sob o peso de uma origem marcada pela tragédia.
Há algo profundamente humano nisso: todos carregamos pedaços que não escolhemos — e Paula se torna símbolo de uma intersecção entre ser mulher, profissional, mãe, agente de fé e tragédia.
Para a sociedade, esse episódio instiga uma reflexão sobre políticas de saúde materna, condições de cuidado pós-parto, e o quanto ainda “apenas sobreviver” vira vitória silenciosa.
Quando a comunidade se mobiliza, doa, ora, faz vigília, qual é o limite entre solidariedade genuína e espetáculo da dor? E como a família atravessa esse limiar?
No fim, Paula não será apenas lembrada como “prima da Ana Castela que morreu no pós-parto”.
Ela será lembrada como ponte entre a expectativa e a perda, entre o que realizamos e o que nunca chegamos a ver.
E aquele bebê, na UTI, será testemunha viva de que a vida insiste, mesmo onde a morte já fez seu ninho.
E agora? A pergunta que fica: como transformamos esse luto em ação — de cuidado, prevenção, comunidade — para que outras Paula’s não sejam estatísticas e outros bebês não nasçam sob o signo da ausência?
Porque, no fim, a vida que começa em sala de parto e a que termina no pós-parto nos lembram que cada nascimento carrega também um adeus — e que a responsabilidade não cessa no “felizes para sempre”.

