“Queremos comercialização com as nossas moedas”, diz Lula na Indonésia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou durante visita à Jacarta que Brasil e Indonésia querem “comercialização com as nossas moedas” — ou seja: efetuar trocas bilaterais usando real e rúpia, em vez de depender do dólar.
É um gesto que, à primeira vista, soa como ruptura: não mais submissão ao privilégio cambial americano, mas afirmação de autonomia.
Mas sob essa promessa repousa uma série de perguntas — e riscos — que exigem mais do que manchetes otimistas.

A ideia de negociar entre moedas nacionais não é inédita, porém para países periféricos ela representa um teste de viabilidade real.
Para que funcione, é necessário que ambas as economias tenham liquidez, infraestrutura financeira, confiança internacional.
No caso de BR-ID (Brasil-Indonésia), os desequilíbrios são enormes.

O Brasil tem como principal parceiro o dólar e vastas cadeias de exportação dependentes de financiamento externo.
A Indonésia, embora emergente, ainda navega numa estrutura de comércio global fortemente dolarizada.
Trocar real por rúpia, em escala significativa, exige construção de rede de câmbio alternativa — algo que não se faz do dia para a noite.

Além disso, o anúncio de Lula vem atrelado à retórica de “não queremos uma 2ª Guerra Fria”, “queremos democracia comercial e não protecionismo”.
O tom é de desafio à ordem hegemônica.
Mas o Brasil, como ator, carece de peso estrutural para converter essa retórica em alavanca econômica — e a Indonésia segue mais focada em ampliar parcerias com potências como China e Estados Unidos.

Podemos interpretar essa iniciativa como símbolo de um “Sul Global” tentando abrir vias alternativas.
Mas também corremos o risco de vê-la como gesto simbólico: bom para imprensa, frágil no impacto efetivo.
Se o mecanismo não for bem desenhado, pode virar mais um “pré-acordo” que gera expectativas e pouco resultado.

Para o Brasil, a vantagem seria clara: exportar com menos custo de câmbio, reduzir dependência do dólar, ganhar margem fiscal.
Mas a concretização depende de listagem de produtos, hedge cambial, acordos bancários.
Sem isso, a troca em moedas nacionais vira sobretudo assinatura de “memorando de entendimento” — não de mercado real.

Já para a Indonésia, o risco é similar: buscar acesso ao mercado brasileiro, sim, mas arriscar concessões.
E em ambos os países, o setor privado precisa estar pronto para dar suporte — bancos, câmaras de compensação, seguros — para que o real-rúpia saia do discurso.

Há ainda um risco escondido: a volatilidade.
O real e a rúpia não têm a mesma estabilidade que moedas de reserva, o que cria uma dependência mútua de risco cambial.
Caso um dos dois países enfrente crise econômica, a troca bilateral pode se tornar onerosa — e o custo político elevado.

No fundo, essa proposta pode ser vista como um espelho: do desejo brasileiro de protagonismo e da vulnerabilidade estrutural que ainda impede esse protagonismo.
O real querer circular além de suas fronteiras não é apenas macroeconomia — é ambição nacional.

Se der certo, será um caso concreto de diversificação geoeconômica: Brasil abrindo mão da dependência do dólar.
Se falhar, poderá reforçar a ideia de que resistência simbólica não substitui preparação institucional e financeira.

A pergunta que permanece: quem vai arcar com os custos iniciais?
Quem vai investir na arquitetura cambial, quem vai correr risco de crédito?
Sem resposta para isso, a “comercialização com as nossas moedas” pode ficar no discurso.

E o “e daí?” é fatal: Se tudo ficar no simbólico, o impacto para produtores, trabalhadores e exportadores será mínimo — e a frustração será real.
Se for bem implementado, porém, poderá abrir estrada — não apenas para Brasil-Indonésia — mas para outros pares que querem escapar da hegemonia do dólar.

No palco da diplomacia, o gesto é relevante.
Mas o teste verdadeiro será no mercado, nos contratos, nos números — onde a retórica poderá ou não se converter em mudança tangível.
E enquanto isso não se desenha, o público fica com a declaração — e a dúvida: será essa iniciativa um passo concreto ou mais um aceno diplomático no continente da sobrevivência financeira global?

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