Facção declara guerra a quem quer usar produtos da Adidas: “Cuidado”

O que antes era só um símbolo de estilo agora pode custar a vida.
Em Salvador, vestir uma camisa da Adidas — marca icônica do esporte global — tornou-se, para alguns, um ato de risco.

As três listras, que durante décadas representaram performance, juventude e status urbano, foram ressignificadas dentro da lógica brutal das facções.
Na capital baiana, especialmente na Pituba, o uso da marca tem sido interpretado como sinal de pertencimento ao Bonde do Maluco (BDM).

Um comerciante relatou ter sido abordado na Rua Pará por causa da camisa.
“O homem disse: ‘aí é três, e aqui nós somos dois’. Troquei de roupa e voltei a trabalhar”, contou.
O “dois” seria referência ao Comando Vermelho (CV), grupo rival atuante na região vizinha.

A moda, que sempre refletiu identidade, passou agora a carregar códigos de guerra.
Peças, cores e até detalhes estéticos viraram marcadores de território — fronteiras invisíveis num tabuleiro urbano tomado por medo e desconfiança.

Casos semelhantes se multiplicam.
Em Saubara, um jovem foi assassinado por usar uma estampa do Mickey Mouse, associada à “Tropa”.
Em Salvador, estudantes deixaram a escola depois que desenharam três riscos nas sobrancelhas — gesto também vinculado ao BDM.

O que parece absurdo à distância faz sentido dentro da lógica das facções: o poder se afirma não apenas com armas, mas com símbolos.
A roupa, o corte de cabelo, a tatuagem — tudo vira senha de pertencimento ou provocação.

O fenômeno expõe um tipo de violência simbólica que antecede a física.
Antes do disparo, há a leitura do corpo: o olhar que decifra a marca, o gesto, o estilo — e decide quem é “um dos nossos” e quem não é.

Nessas zonas de tensão, o vestir-se torna-se ato político involuntário.
Cada peça escolhida ao acaso pode ser interpretada como posicionamento — e, portanto, ameaça.

É a estetização do medo.
A cultura de consumo, construída sobre desejo e diferenciação, é sequestrada pela lógica territorial da criminalidade.
As marcas, que projetam identidade e pertencimento global, tornam-se bandeiras locais de um conflito fragmentado.

Nada disso é exatamente novo.
Nos anos 1990, o uso de determinadas cores já dividia ruas em cidades americanas tomadas por gangues.
Mas a sofisticação simbólica das facções brasileiras — que incorporam referências da moda, do rap e das redes sociais — torna o fenômeno ainda mais difuso e imprevisível.

A consequência é perversa: o medo infiltra-se até na estética.
Jovens aprendem a calibrar seu visual não pelo gosto, mas pela geografia da violência.
Escolher uma camiseta, em certos bairros, é um exercício de sobrevivência.

Enquanto o Estado falha em reconquistar o território físico, as facções dominam o imaginário.
Elas decidem o que pode ou não ser usado — um poder cultural que talvez seja mais profundo e duradouro do que o controle das armas.

No fim, a tragédia das três listras em Salvador revela mais do que um conflito entre criminosos.
Mostra um país em que até o ato banal de se vestir foi tomado pela política do medo — e onde a liberdade de expressão começa, ironicamente, pelo direito de escolher uma roupa sem morrer por isso.

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