Líder do MST quer enviar brigadas à Venezuela para enfrentar Trump

Em meio ao recrudescimento das tensões entre Estados Unidos e Venezuela, o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, afirmou que formações voluntárias do movimento poderiam ser enviadas ao país vizinho como expressão simbólica de solidariedade, caso Washington avance com ações militares. A proposta, feita em declarações recentes, reacende um debate político explosivo sobre a postura do Brasil e a autonomia dos movimentos sociais.

Segundo Stédile, essas brigadas voluntárias teriam caráter essencialmente humanitário, não militar: “Se vamos entrar em confronto: claro que não. Não temos formação para isso nem deveríamos. O povo venezuelano sabe se defender.” A ideia, nas palavras do dirigente, seria apoiar com auxílio logístico, produção agrícola, alimentação das comunidades locais e solidariedade política.

A provocação ocorre em um momento dramático das relações hemisféricas. Brasília acompanha com cautela a escalada de sanções e movimentações navais feitas sob autorização do presidente Donald Trump. Militarmente, os EUA reagiram ao que chamam de “ações terroristas promovidas por organismos venezuelanos” com missões de interceptação e ataques a embarcações suspeitas de tráfico. Entre as operações recentes está a destruição de um navio do grupo Tren de Aragua no sul do Caribe, em ação que resultou em 11 mortes.

O clima regional se deteriorou também por decisões políticas. Desde agosto de 2025, a Casa Branca decidiu triplicar as recompensas oferecidas por informações que levem à captura ou condenação do presidente Nicolás Maduro, acusado por Washington de liderar redes criminosas internacionais. Em paralelo, navios de guerra norte-americanos mantêm presença constante na costa venezuelana, com tropas de fuzileiros estando em alerta.

A resposta oficial de Caracas agrega outro elemento voltado à simbologia regional. Maduro mobilizou milhões de voluntários por meio da Milícia Bolivariana e reforça medidas de autodefesa civil. A ameaça de intervenção externa reacende memórias como a destruição da embarcação Macuto, episódio que, há cinco anos, marcou a frustrada chamada “Operação Gideão”, tentativa de invasão à Venezuela patrocinada por opositores.

Além do suporte humanitário, Stédile propõe que a solidariedade latino-americana seja convocada. Ele pede a ativação de redes de movimentos sociais em todo o continente para pressionar governos, realizar campanhas contra sanções e atuar em frentes diplomáticas. “Organizações populares da América Latina têm obrigação moral e histórica de se posicionar frente a agressões imperialistas.”

Mesmo assim, a iniciativa é alvo de crítica. Na comunidade política brasileira, o risco político é avaliado como alto. Congressistas de oposição já alertam que o envolvimento direto em um cenário de conflito colocaria o Brasil em rota de colisão diplomática com Washington. Para alguns setores, a ação poderia configurar violação do princípio constitucional da não intervenção e expor militantes a riscos inexistentes de propósito humanitário.

Do lado externo, diplomatas europeus e analistas latino-americanos chamam a proposta de “gesto simbólico com forte carga eleitoral interna no Brasil”. A declaração de Stédile insere-se em um contexto no qual o governo federal atravessa impasse diplomático: apesar de crítica à retórica belicista dos EUA, Brasília teme ser arrastada para um confronto direto.

O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou que o Brasil não apoia nenhuma ação que possa ser interpretada como militar ou intervencionista. Entretanto, aliados políticos sugerem que a atitude de Stédile revela a fissura entre discurso oficial e agendas sociais que pressionam o governo por solidariedade ativa perante o que denominaram “novo capítulo da luta anti-imperialista”.

A retórica nacionalista também vem crescendo em vários fóruns regionais. Líderes esquerdistas na América do Sul, inclusive Gustavo Petro (Colômbia) e Daniel Ortega (Nicarágua), elogiaram o gesto do MST como “ação de dignidade continental”. Para eles, tais manifestações demonstram que a resistência social pode se sobrepor às limitações dos governos nacionais.

Críticos, no entanto, enxergam perigo em protagonismos dessas organizações: para setores diplomáticos, o Brasil pode perder credibilidade como mediador neutro na crise. A percepção de que um agrupamento ligado ao Estado está disposto a atuar em território estrangeiro em um contexto de conflito militar coloca Brasília em risco de sanções indiretas, sobretudo em momentos de fragilidade econômica.

A disputa simbólica deste capítulo latino-americano se fortalece no contexto da “doutrina Monroe reversa” defendida por Brasília. O governo tem repetido que “a Venezuela seguirá soberana e ninguém tem o direito de decidir seu destino”, uma resposta ao apoio explícito de Washington a movimentos internos de oposição. Essa posição tem apoio popular, segundo pesquisas recentes, mas divide analistas quanto à coerência estratégica.

A crise também ganhou contornos mais agudos após a detenção de cidadãos americanos em Caracas. A visita de um enviado especial de Donald Trump ao país intensificou a pressão, com exigências de repatriação e prazos para a libertação de prisioneiros considerados reféns. Caracas, por sua vez, condicionou qualquer diálogo ao reconhecimento de sua legitimidade política após eleições marcadas por irregularidades que Washington e a União Europeia denunciam.

Diante do risco de escalada, observadores internacionais monitoram o papel de Brasília como mediador. A posição de João Pedro Stédile pode funcionar como instrumento político para fortalecer a narrativa latino-americana de resistência, mas também expõe a tensão entre movimentos sociais e governos em cenários de alta volatilidade diplomática.

A declaração recente revive um tema recorrente da atuação do MST fora das fronteiras nacionais: desde 2006, brigadas já atuam na Venezuela prestando apoio à produção agrícola e à soberania alimentar. São trabalhos voltados à construção de agroflorestas, produção de sementes e cooperação técnica, ações que, segundo o MST, reforçam os laços históricos entre os dois povos.

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