Quando a terapêutica vira trincheira: Nicole Bahls, Virginia e a disputa pública da verdade
“Falas que me embrulham o estômago.”
É dessa maneira que Nicole Bahls reagiu a acusações feitas por uma terapeuta — em reportagem da Quem — de que Virginia Fonseca estaria manipulando emocionalmente Vini Jr. (através de terapia, controle psicológico ou discursos estratégicos).
O episódio escancara três tensões que atravessam o “universo dos influencers” brasileiro: poder simbólico, autoridade terapêutica e a disputa corpórea (e digital) pela narrativa de quem sofre.
Quando uma figura com autoridade terapêutica acusa alguém de manipulação emocional, assume posição de árbitro da dor alheia. Mas essa autoridade é incontestável? Quem garante que, no embate entre a terapeuta e Virginia, a primeira não instrumentalize o discurso da saúde mental para produzir escândalo?
Nicole reagiu citando náuseas: é retórica forte. Não uma defesa técnica, mas uma negação visceral. Ao fazê-lo, rebate a acusação na única arena onde ainda tem legitimidade — a do corpo (o “estômago”) e da moral: “isso me embrulha”, portanto, não é apenas falso, é repulsivo.
Na recente onda das redes, “terapeuta acusa de manipulação” virou fórmula narrativa. É como se a ciência já fosse uma munição eleitoral, um selo que, ao ser usado, desautoriza emocionalmente o acusado. Mas terapeuta não é juiz: não cabe ao profissional certificar culpa pública, sob pena de extrapolar o pacto terapêutico.
Quando a acusação parte de terapeuta, o embate deixa de ser só sobre Virginia ou Vini Jr. — torna-se sobre quem tem mais direito à narrativa legítima do sofrimento.
Virginia, Vini Jr. e Nicole — três sujeitos públicos — vivem sob vigilância. Áudios, histórias vazadas, acusações gravadas. Nesse jogo, quem acusa passa a ter protagonismo momentâneo. Quem é acusado precisa reagir para não desaparecer. O embate entre Nicole e a terapeuta é, assim, disputado também no timing da repercussão: quem aparece primeiro “faz” a verdade pública.
Do ponto de vista simbólico, Nicole atua como contraponto: assume o papel de defesa de Virginia, mas também de guerreira moral — “não suporto essas falas”. Ao assim reagir, ela define o adversário: a acusadora, uma voz repulsiva demais para ser ouvida com decoro.
A acusação, por mais técnica que queira parecer, está embebida de julgamento moral. E a resposta de Nicole — de náusea, de repulsa — objetiva deslocar o foco: da acusação técnica para o ofensor. Não se trata mais de ver se há manipulação, mas de transformar o acusador em figura vil.
Isso obriga o público — nós — a escolher lado, não com base em provas, mas em quem provoca mais empatia. O discurso da terapeuta fica desentendido no cruzamento de moralidades e ódios latentes.
Este caso não é apenas sobre Virginia Fonseca ou Vini Jr. ou Nicole Bahls. É sobre quem autoriza o uso público da dor e quem pode “terapeutar” reputações alheias. É disputa de legitimidade: entre a autoridade clínica, o espetáculo midiático e o corpo que sofre.
E sobretudo — quem define o que é manipulação emocional e quem tem o poder de chamar isso de crime moral para os olhos do público?
A pergunta final permanece: num mundo em que todos podem “denunciar” nas redes, quem assina por essa denúncia? Quem responde por seu peso quando a acusação se torna arma — e não terapia?

