A decisão de apagar uma tatuagem pode parecer banal. Mas quando quem o faz é uma das maiores influenciadoras do país, nada é trivial. Cada gesto, cada curativo, cada silêncio vira notícia — e, mais que isso, espelho de uma geração que transforma afetos em conteúdo e intimidade em moeda social.
Virgínia Fonseca, com seu poder de influência que ultrapassa fronteiras digitais, anunciou — sem anunciar — o início do processo de remoção da tatuagem feita em homenagem a Zé Felipe, seu ex-marido. Um detalhe revelado quase acidentalmente, por meio da curiosidade das filhas, tornou-se um evento midiático.
Mas o que realmente está sendo removido? Um nome, uma lembrança ou a própria narrativa de um amor exibido e monetizado?
O casamento de Virgínia e Zé Felipe não foi apenas uma união afetiva, mas um empreendimento multimilionário. Juntos, transformaram a exposição da vida cotidiana em estratégia comercial, com campanhas, produtos e transmissões ao vivo que misturavam amor e marketing.
A tatuagem, feita em 2023 durante uma live de vendas, simbolizou essa fusão radical entre intimidade e espetáculo. Não foi apenas uma demonstração de carinho — foi uma meta de engajamento. O amor como performance, recompensado por 100 mil produtos vendidos.
Agora, o laser PicoLo, que promete apagar com eficiência e menos danos à pele, age como metáfora da tentativa de reescrever a própria história. A dor do procedimento, descrita por Virgínia como “muito intensa”, talvez diga mais do que ela gostaria: apagar é sempre mais doloroso que escrever.
Vivemos tempos em que o amor não morre — é arquivado, silenciado ou “descancelado”. As redes permitem deletar lembranças com a mesma facilidade com que se apaga um story. Mas o corpo, esse arquivo teimoso, não tem a mesma opção.
O gesto de Virgínia ecoa em tantas pessoas que um dia tatuaram nomes, rostos ou promessas. Só que, no caso dela, a tatuagem não é apenas uma lembrança pessoal — é um símbolo público que precisa ser controlado, ajustado, higienizado para o novo capítulo de imagem que virá.
Apagar o “Zé” do pulso é, em certa medida, limpar o feed. É um reboot emocional e estético. O amor, antes conteúdo, agora é ruído que precisa sair da cena.
Há, porém, um dilema ético e simbólico: até que ponto o amor precisa ser documentado para existir? E quando o registro é apagado, o sentimento também se desfaz — ou apenas muda de formato?
A tatuagem de Virgínia nos obriga a encarar a estética da efemeridade. Marcas que antes simbolizavam permanência agora são descartáveis, compatíveis com a lógica das redes: tudo pode — e deve — ser reeditado.
Talvez o maior produto dessa geração não seja a maquiagem, o perfume ou a roupa, mas a própria narrativa de si. E, como todo produto, ela passa por ciclos de lançamento, reposicionamento e rebranding.
No fim, o laser não apaga apenas tinta — apaga versões. A cada sessão, um pouco da história se desfaz na superfície da pele, enquanto outra começa a ser escrita, cuidadosamente filtrada, na tela do celular.
O corpo deixa de ser testemunha e se torna tela — reiniciada, calibrada, sempre pronta para o próximo capítulo.
E o público, cúmplice silencioso, assiste à cena com a estranha sensação de que também já tatuou demais, mesmo que só com cliques.
Afinal, o que dói mais: o laser que remove o nome de quem se amou ou o vazio que fica quando a vida precisa caber em 15 segundos de story?

